A nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (13), expôs com mais clareza o tamanho e a complexidade do esquema que desviou centenas de milhões de reais de aposentados e pensionistas do INSS por meio da Conafer. Documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal detalham como a engrenagem criminosa funcionava, quem atuava em cada etapa e por que as prisões preventivas foram consideradas urgentes pelos investigadores.
Segundo a PF, a Conafer, que mantinha convênios com o INSS para realizar descontos diretamente na folha de beneficiários, manipulou dados, criou filiações falsas e apresentou listas de supostos associados que jamais autorizaram qualquer cobrança.
O convênio rendia valores expressivos: só entre 2019 e 2024, a entidade recebeu R$ 708 milhões, dos quais R$ 640 milhões teriam sido desviados. A estimativa geral, considerando outras associações suspeitas, chega a R$ 6,3 bilhões em fraudes que atingiram milhões de segurados.
No topo da estrutura, afirmam os documentos, estava o presidente da Conafer, Carlos Lopes, apontado como articulador político e mentor do esquema. Sua prisão foi decretada, mas ele ainda não havia sido encontrado até a noite de quinta. O irmão, Tiago Abraão, vice-presidente da instituição, foi detido. Ele é acusado de inserir dezenas de listas fraudulentas que permitiram que mais de 650 mil benefícios sofressem descontos indevidos.
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No núcleo financeiro, o operador Cícero Marcelino desempenhava papel essencial: organizava planilhas, distribuía pagamentos e movimentava recursos em nome de terceiros. Ele é considerado o responsável por operacionalizar repasses a agentes públicos e estruturava parte das empresas de fachada usadas na lavagem.
Entre os servidores federais investigados, dois ex-presidentes do INSS aparecem como peças-chave. Alessandro Stefanutto, preso nesta quinta, é apontado como responsável por garantir a manutenção administrativa do convênio irregular. A PF afirma que ele recebia repasses mensais que chegavam a R$ 250 mil, pagos via intermediários e empresas fictícias.
Já José Carlos Oliveira, que além de dirigir o INSS foi ministro da Previdência no governo Bolsonaro, teria atuado de forma estratégica por anos, liberando valores sem comprovação de filiações e mantendo comunicação direta com operadores do grupo. Ele aparece em planilhas com os codinomes “Yasser” e “São Paulo”, associado a repasses indevidos e a decisões que favoreceram a continuidade do esquema.
A PF sustenta que, mesmo após a primeira fase da operação, integrantes continuaram movimentando bens, esvaziando contas e tentando reorganizar contratos, o que motivou os pedidos de prisão. Para os investigadores, a estrutura criminosa só funcionou devido à interação entre três frentes bem definidas: comando, finanças e apoio político. A apuração segue no STF.
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