O cenário político latino-americano nos revela um tempo de retrocesso e violência. O campo progressista resiste, mas parece sem força- ou sem discurso- para propor uma agenda de mudanças ou para frear um ciclo conservador que avança e surpreende, especialmente pela captura de parte da juventude e de expressivos segmentos sociais que antes compunham a base operária de esquerda. As questões materiais importam ou devemos organizar nossa retórica somente a partir do mundo das ideias? Como integrar e como disputar, discursivamente, os corações e sonhos que marcham para uma nova era fascista?
Segundo os livros ‘Tupã Tenondé’, de Kaká Werá Jecupé, e ‘O elogio da língua Guarani’, de Melià, referidos no perfil @guiasulear, o Guarani é a segunda língua nativa mais falada na América do Sul. Ao lado do espanhol, é a língua oficial do Paraguai, onde 90% da população fala o idioma. É também falada por indígenas guaranis no Brasil, Argentina e Bolívia. Na cosmovisão Guarani, não se pode separar a palavra da alma. A linguagem não é uma coisa que a gente usa, mas algo que a gente é. A fala é a manifestação visível e audível da nossa essência divina, é a própria alma. Nossos discursos são, portanto, considerados formas de ñe’ẽ, de alma. Como devemos expressar, então, essa alma que clama por justiça e igualdade? É demarcando posições, catequisando para as linguagens adequadas a todos os grupos identitários, ou buscando nexos com a vida concreta e com o valor universal da democracia? Talvez esse seja ogrande nó que precisamos desatar para os confrontos que precisamos travar e os fenômenos que dependem da nossa compreensão e não da nossa crítica feroz e ofensiva. O que podemos considerar hoje um discurso social competente? O que pode ser dito e pensado de modo a ampliar nossa influência? Quais representações ideológicas e abordagens políticas têm capacidade e requisitos para dialogar e articular apoios? A ideia de discurso social seria a capacidade de balizar tudo o que é possível ser dito e pensado em dado momento da sociedade, com uma produção social de sentidos, de acordo com Marc Angenot (2010). Os enunciados podem encontrar limites e regularidades, imersos em rumor social e formas argumentativas que se desenham muitas vezes caóticas e agressivas. Qual a posição que cabe à esquerda diante da consolidação de novos atores políticos e sociais que desconfiguram a ideia de Estado e apresentam alternativas ideológicas violentas?
A linguagem progressista ou nacionalista de esquerda que tenta fazer frente mostra talvez uma faceta mais deteriorada de um fim de ciclo que, com o maniqueísmo eleitoral apresentado, busca se manter com o alerta que os extremistas de direita serão piores. Mas isso não tem sido suficiente.
A Fundação Friedrich Ebert no Brasil vem fazendo uma série de estudos e pesquisas que permitem iluminar, tipo lanterninha de cinema, algumas pistas para o que está se passando nos enredos e roteiros dos novíssimos cenários políticos e simbólicos latino-americanos. A pesquisa mais recente- Juventudes: um desafio pendente- investiga quem empurrou os jovens para a direita, os discursos e agendas que movem os valores e a juventude brasileira. Nesse apanhado de percepções e posicionamentos, há sugestões de diálogo e conexão que interessam aos jovens que estão se bandeando para as promessas antissistêmicas da extrema direita e que podem ser bem explorados pelo campo progressista. Alguns dados são muito emblemáticos. Apenas 12% dos jovens se engajam ou se identificam com o feminismo. Talvez seja hora de pensar que a gramática utilizada até aqui não promove adesão, mas espanta mesmo quem comunga de determinadas posições. Tentar catequisar, corrigir e dizer como falar ou comportar-se não parece surtir efeito. Alcança 26% o percentual de jovens que se mobilizam em torno da defesa da família, mas nenhum tema moral aparece no topo das preocupações centrais da juventude. Já 86% deles defendem que o estado priorize Educação e Saúde. Que tal falar disso como elemento de proteção às famílias, às mulheres?
O individualismo neoliberal envolve a perfeição com a defesa da família tradicional, aquele que funciona de estabilizador social, espaço de controle social e de subordinação da mulher, das crianças e das pessoas LGTB. Nesse modelo se reproduz boa parte da violência patriarcal. Nos Estados Unidos, por exemplo, recortes neoliberais do gasto público em educação, saúde e bem-estar se baseiam na suposta saída de que as relações familiares podem substituir esses serviços públicos. Por aqui, quando conseguimos mostrar pautas que defendem a família, mas ao mesmo tempo exigem posição e recursos do estado, conseguimos ampliar o diálogo. Falamos de abuso infantil e temos repercussão. Tratamos de necessidade de políticas públicas para conter violência contra a mulher e aumentamos engajamento. Mencionamos políticas de emprego e conseguimos obter atenção da juventude. Podemos deixar de lado costumes sexuais disciplinares específicos e fazer a defesa da família com necessidades universais e concretas. Se o neoliberalismo utiliza a família para reduzir as funções do Estado, podemos mostrar que os choques e a indeterminação que provocam o mercado livre, desmontam qualquer apoio de bem-estar enquanto liberaliza e precariza o trabalho. Essa pauta interessa a juventude. De acordo com a pesquisa da FES, 61% dos jovens apontam desemprego e pobreza como principal problema do país e mais de 55% defendem políticas públicas de emprego. Não por acaso, apenas um terço dos jovens (36%) tem trabalho estável e a precarização do trabalho aparece como fator central de insatisfação juvenil. Evidentemente há paradoxos, há sonhos, estéticas e condutas não compatíveis com determinados valores que nos são caros, mas partir para a crítica e o insulto (pobres de direita, fascistas mirins, etc) não nos ajuda. 60% dos jovens apoiam a cobrança de impostos mais altos para os super ricos. Que tal? Vale o mesmo para o cuidado em abordar um tema que é fator de preocupação em todas as idades: Segurança Pública. 41% dos jovens concordam que a violência criminosa justifica a ação policial. Mas 64% deles acreditam que a formação e a valorização policial reduzem a violência. Quem sabe esse enunciado, com provas de que já fizemos isso, nos permita mais contato e convencimento?
A FES também pesquisou quem são os detratores da extrema direita no Cone Sul. Foram 5.500 entrevistas na Argentina, Brasil e Chile. Chegaram à conclusão de que há um grupo amplo e diverso, com perfis diferentes em cada país, que rejeita a ultradireita. Os pontos em comum são a preferência pela Democracia, a defesa da igualdade e dos investimentos sociais e a busca por ordem e segurança com o Estado presente. Na Argentina, esses grupos se caracterizam pelo nível de escolaridade, no Brasil, pela fragmentação territorial e no Chile pela posição sobre temas morais. Por aqui, a rejeição ao bolsonarismo está em setores diversos e está unida pela defesa ativa da democracia. Jovens urbanos progressistas fazem parte dessa espécie de resistência ao fascismo. Ao lado de uma classe média católica e de um nordeste feminino e popular, fazem a mesma defesa: uma democracia que inclua, proteja e não violente. Esses grupos conseguem atrair um centro pluralista e moderado e até conservadores moderados contrários à polarização. É importante ter isso em mente para fazer pontes, favorecer a conversa, olhar para os consensos e pontos em comum. Ou podemos dizer de uma forma mais poética e alinhada com a sabedoria guarani do “bem viver” (Teko Porã). Poderia ser:“Ñane ñe’ê omyakã yvy mba’e vai” (Nossa alma supera as coisas ruins do mundo).
