Estranhei a calma ao servir o jantar às pessoas em situação de vulnerabilidade que chegaram para jantar no Refettorio Gastromotiva, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Não era a primeira vez que fazia um serviço voluntário, e ainda assim senti uma angústia que pensei já ter superado.
Só me dei conta o quanto aquilo havia me tocado quando, já em casa, terminei a leitura do livro De onde eles vêm, de Jeferson Tenório, e desandei a chorar. Os rostos que eu vira naquela noite voltaram em série. Tentava adivinhar porque estavam ali, como eram as suas vidas. Sabia – vendo-os – que não era fácil.
Mas o que aconteceu desta vez? Talvez a proximidade: ficamos servindo por mais tempo, não era apenas o gesto rápido de entregar uma quentinha a quem passa na fila. Ali todos serão servidos como clientes, ninguém precisa pedir.
No Refettorio é diferente – é um jantar completo, com entrada, prato principal e sobremesa – e um raro instante de igualdade parece se estabelecer. Também porque era o mesmo cardápio que eu havia provado no almoço, servida na mesma louça, no mesmo lugar, que é acolhedor.
Que histórias esses rostos não contam
Quando explicava aos voluntários sobre o trabalho, Cláudia Queiroga lembrou que serviríamos pessoas que, quando cruzamos nas ruas, não vemos – são invisíveis.
A sensação de estar ali é, ao mesmo tempo, de emoção (por servir com carinho alguém que raramente o recebe) e de frustração (por parecer tão pouco). Onde iriam depois dali? Que oportunidades teriam para deixar de viver nas ruas?
Enquanto a equipe de voluntários daquela noite (alunos de vários cursos da UFRJ e duas curitibanas, uma delas a coordenadora do curso de Gastronomia da PUC/PR, a professora Eloize Cruz) aguardava todos entrarem para começar o serviço, eu observava o movimento.
Um homem negro, bonito, mantinha a postura ereta. Não falava com ninguém e tinha o olhar triste, fixo olhando a parede à sua frente. Era a primeira vez ali, soubemos quando levantou a mão ao ser perguntado.

Um grupo de travestis ria alto, entrou como quem desfila, com seus penteados e roupas coloridas. Parecia acostumado com o local. Pensei: só mesmo um pouco de alegria para amenizar a vida difícil (nem imagino como conseguem).
Um senhor de passos rápidos sentou-se longe deles, cruzou as mãos e fechou os olhos, parecia rezar. Um casal jovem permaneceu quase mudo o tempo todo, colados um ao outro, alheio ao redor.
Um rapaz com uma toalha verde na cabeça, presa por um óculos escuro, balançava o pano jogando as pontas para trás, como se fossem cabelos longos. Sentou-se, tirou um papel da mochila e começou a escrever, preenchendo cada pedacinho livre. Depois pediu para ler, mas não deu conta de dominar o microfone. A primeira frase do poema que escutei:
Sonho sonhar, ter um sonho.
Uma vida em que até os sonhos se perdem.
Outro rapaz, bonito, de jeans, tênis e camisa branca, carregava uma bolsa grande de mão, um casaco e uma pochete atravessada no peito. Com um coque alto e semblante sério, distraía-se jogando o jogo da velha com o companheiro de mesa enquanto não era servido.
Uma idosa muito magra, com o rosto vincado, unhas compridas pintadas de vermelho e os cabelos presos por uma faixa – acompanhada por uma jovem – olhava para os lados, talvez tentando encontrar alguém.
Ao todo, 72 pessoas participavam de mais um jantar no Refettorio Gastromotiva. A maioria, homens negros. Educados, atentos às orientações como respeitar a fila para usar o banheiro, e eufóricos ao descobrir que a sobremesa do dia seria sorvete.
A curiosidade era recíproca: eles também olhavam para mim (não imaginava). Perguntaram se eu era brasileira, se pintava o cabelo (não acreditaram que fosse natural), se eu era mesmo de Curitiba e em qual bairro morava. Dois elogiaram a cidade e contaram experiências de passagens por aqui. Um deles disse que queria falar comigo ao final, mas assim que terminou a sobremesa saiu apressado.
O livro
O personagem do livro De onde eles vêm, de Jeferson Tenório – órfão, desempregado, sem dinheiro, dividindo o tempo entre cuidar da avó doente e o desejo de ser escritor – poderia ser a história de qualquer um daqueles à mesa.
Joaquim, perseguido pela vontade de desistir da vida, tropeça no preconceito, nas dificuldades e na exclusão. Sofre com o ambiente hostil da universidade quando entra como um dos primeiros cotistas na Faculdade de Letras. Não deveria ser assim. Não deveria. Impossível não sentir empatia pelo personagem e por todos os jovens como ele.
Sobreviver aqui tem que ser mágico
ouço a música Rapaz Comum, do Racionais MC’s, indicado por Tenório, no Spotify. É isso.
Equipe do Refettorio
Com o convite de uma amiga, Sérgio Brito trocou o trabalho em uma rede de restaurantes para gerenciar a cozinha do Refettorio Gastromotiva e não se arrepende. Há seis meses na função, diz que nem sabe definir a transformação que já viu acontecer em quem passa por ali e nele próprio.
Eles reconhecem o que ganham aqui.
Quando os encontramos nas ruas trocamos sorrisos e, não raro, escutamos o grito:
Viva la cocina.
O bordão é repetido quando a argentina Eloisa Aquino participa do serviço – o que acontece quase todos os dias. Surgiu por acaso, como homenagem a um chef mexicano que cozinhava lá. Virou sua marca. Lembro de ouvir David Hertz, o criador da Gastromotiva, contar que se assustou quando Aquino chegou falando alto.
A gente costumava manter o ambiente um silêncio, mas a alegria dela foi contagiante e as pessoas gostaram.
Todas as noites eles me devolvem um amor em dobro. Eu fui para ajudar e fui ajudada. São pessoas que não têm nenhuma oportunidade, nasceram sem privilégios, ou os perderam no meio do caminho. Esse trabalho me abriu portas. Hoje, sou outra pessoa
reflete a empresária.
Aquino, que é da área de comunicação, relações públicas e de produção de eventos, chegou ali depois da morte do seu marido, percebendo a depressão se aproximar. No hospital, durante o tratamento dele, viu pela televisão a abertura do Refettorio, em 2016. Naquele momento decidiu que iria procurar David Hertz.

Para ela, o boa noite efusivo, as explicações sobre a comida e quem preparou, o cuidado com a origem dos alimentos, a importância em servir com amor e não desperdiçar envolve todos: quem dá e quem recebe. Outro benefício é aproximar restaurantes e os alunos da Gastromotiva, criando oportunidades de trabalho.
Aquino e Queiroga se dividem para receber os voluntários que servem o jantar. Queiroga, cozinheira solidária social formada pelo Refettorio Gastronomia, fala do compromisso em alimentar mais e desperdiçar menos.
Aprendi isso aqui.
Ela também faz a articulação com instituições de acolhimento para conhecerem o jantar solidário e leva o trabalho a sério porque vê resultados.
Muitos chefs premiados (de restaurantes com estrela Michelin e colocação no ranking do The 50 Best Restaurants) já passaram pela cozinha do local e é comum voltarem. A ideia é sempre oferecer menus originais, a maior parte com ingredientes doados. Nesta semana, Márcia Borges, do restaurante Terra Madre, em Curitiba, e a jornalista Carol Olinda, do Bom Gourmet, foram as responsáveis pela criação e execução do cardápio por um dia.
David Hertz
Se escrevo esse texto é porque conheço quem criou e está à frente da Gastromotiva e do Refettorio Gastromotiva, o curitibano David Hertz. A experiência em comunidades agrícolas em Israel na adolescência e a leitura de clássicos despertaram nele o espírito empreendedor social, a inquietação com as desigualdades. Aprendeu na prática.
O resultado é o reconhecimento internacional pelo o que faz há mais de 20 anos: seja em fóruns globais, universidades, ou em cozinhas solidárias, onde compartilha conhecimento e transforma vidas criando oportunidades. A Gastromotiva foi criada em 2006 e o Refettorio Gastromotiva em 2016. Ele acredita na gastronomia como uma ferramenta de transformação.

Ele conecta gastronomia e impacto social de uma forma leve e profunda. Foi isso que me fez procurá-lo há quase 10 anos para trazer a Gastromotiva a Curitiba, que, agora, vem embalada numa ideia inusitada de dançar ao meio-dia, durante a semana.
É com o Juro que danço (a balada matinal, resultado de uma parceria entre a Social Ideias e Nazdarovia Eventos) que começamos o movimento para retomar as atividades de formação interrompidas na pandemia (inicialmente, pois queremos ir além das formações). Na época da interrupção, todo o esforço dele foi montar cozinhas solidárias pelo Brasil para preparar e distribuir comida (mais de 200).
Sobre o Refettorio Gastromotiva
O Refettorio Gastromotiva é um restaurante social e escola de gastronomia ao mesmo tempo. Foi fundado em 2016 como um legado dos Jogos Olímpicos na cidade, é fruto da parceria entre David Hertz, o chef italiano Massimo Bottura e a jornalista Ale Forbes. A inspiração veio do modelo do Refettorio Ambrosiano de Milão.
Durante o dia, funciona como restaurante-escola, com almoço aberto ao público. À noite, serve jantares solidários para pessoas em situação de vulnerabilidade. A diferença com outras iniciativas (os restaurantes solidários de Curitiba são inspirados nele) é o ambiente projetado e decorado por arquitetos e designers famosos – e na hospitalidade, que deixa a inclusão evidente e reafirma a dignidade. Lá não se serve apenas um prato de comida.

Outro diferencial é receber chefs convidados, que doam tempo e talento para criar menus exclusivos, conectando a alta gastronomia à causa social. O almoço custa R$45,00 e financia o jantar solidário no mesmo dia – é literalmente “vender o almoço para pagar o jantar”.
@gastromotiva @refettoriogastromotiva
Mudar
Ocorreu uma mudança durante essas últimas semanas. Mas onde? É uma mudança abstrata que não se fixa em nada. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi esse quarto, essa cidade, essa natureza; é preciso decidir
Jean-Paul Sartre, A naúsea. Na abertura do livro do Jeferson Tenório.
