Nas últimas décadas, o discurso da sustentabilidade consolidou-se como um dos eixos centrais das discussões sobre desenvolvimento econômico e responsabilidade social corporativa. Nesse contexto, o conceito de ESG (Environmental, Social and Governance) ganhou destaque mundial ao propor a incorporação de critérios ambientais, sociais e de governança nas práticas empresariais e nas decisões de investimento.
Todavia, a disseminação acelerada do ESG, sobretudo após a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP21) e o Acordo de Paris (2015), justifica questionamentos sobre a efetividade de tais práticas e a real capacidade de promover transformações estruturais no modelo capitalista vigente.
A expansão do termo no meio corporativo, muitas vezes associada a estratégias de marketing e à valorização de ativos financeiros, atrai pertinentes críticas quanto à autenticidade do discurso e aos fenômenos de greenwashing e social washing, que mascaram práticas nocivas sob o rótulo da sustentabilidade.
Cumpre analisar criticamente o fenômeno ESG, investigando suas origens, fundamentos teóricos e limitações práticas, bem como as contradições entre o discurso corporativo de sustentabilidade e a realidade econômica, social e ambiental contemporânea, partindo-se da hipótese de que o ESG, enquanto ferramenta de mercado, reproduz as desigualdades e as crises inerentes ao sistema capitalista, configurando-se, em grande medida, como um mecanismo de proteção patrimonial e de manutenção da lógica de acumulação.
O conceito de sustentabilidade empresarial ganhou destaque a partir da década de 1990, quando o economista John Elkington publicou a obra Sustentabilidade: canibais com garfo e faca, introduzindo o conceito de triple bottom line (TBL), ou “triplo resultado”. Essa formulação expandiu a noção tradicional de sucesso empresarial, centrada exclusivamente no lucro, ao propor a mensuração do desempenho organizacional em três dimensões: econômica, social e ambiental (ELKINGTON, 1994).
Em 2004, surge a sigla ESG (Environmental, Social and Governance), no relatório Who Cares Wins, produzido a pedido da Organização das Nações Unidas (ONU, 2004). O termo ganhou maior relevância a partir de 2015, no contexto da COP21 e do Acordo de Paris, quando 196 países se comprometeram a adotar medidas para mitigar as mudanças climáticas, estabelecendo a meta de neutralizar as emissões de carbono até 2050 (ONU, 2015).
No ambiente corporativo, esse movimento impulsionou a adoção da chamada “agenda ESG”, que propõe incorporar fatores ambientais, sociais e de governança nas decisões estratégicas empresariais. Diversas empresas anunciaram metas ambiciosas de neutralidade de carbono, enquanto investidores passaram a direcionar recursos a fundos e ativos vinculados a práticas de sustentabilidade.
O ESG insere-se, assim, como um conceito de natureza capitalista, fundamentado na tentativa de conciliar o imperativo econômico com a mitigação das mudanças climáticas e das desigualdades sociais. Seria uma expressão do chamado capitalismo de stakeholder, versão que supostamente amplia a preocupação empresarial para além dos acionistas, incluindo trabalhadores, consumidores e comunidades. Em tese, o ESG configuraria uma forma “humanizada” do capitalismo, orientada pelo ideal do desenvolvimento sustentável.
A ideia de desenvolvimento sustentável, entretanto, não é recente. Sua formulação remonta à Primeira Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, realizada em 1972, em Estocolmo, sob a égide da ONU. Posteriormente, em 1987, o Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum), elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), consolidou o conceito como “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991, p. 7).

Durante as décadas de 1980 e 1990, disseminou-se o discurso da responsabilidade social corporativa e do capitalismo consciente, defendendo a compatibilização entre geração de lucro e compromisso ético com a sustentabilidade e a inclusão social. Contudo, tais iniciativas raramente se traduziram em transformações estruturais efetivas.
Após 2015, o ESG tornou-se uma tendência global. Instituições financeiras passaram a condicionar investimentos à divulgação de indicadores de sustentabilidade, ética e inclusão. A ampliação do interesse pelo tema conferiu-lhe grande visibilidade, mas também fomentou práticas condenáveis de greenwashing e social washing, em que empresas simulam responsabilidade ambiental e social sem alterar de fato suas práticas produtivas ou organizacionais.
Cumpre observar que o ESG não constitui uma nova designação para a sustentabilidade, tampouco um substituto para a responsabilidade social corporativa. Trata-se de uma metodologia de mensuração de riscos e de geração de valor para acionistas e investidores, centrada na comunicação de indicadores e relatórios. Embora possa convergir com os objetivos da Agenda 2030 da ONU, o ESG mantém uma natureza essencialmente financeira e instrumental.
Dados da PwC (PricewaterhouseCoopers) estimavam que, até este ano, 57% dos ativos de fundos mútuos na Europa estarão alocados em produtos que incorporam critérios ESG, e que 77% dos investidores planejavam deixar de adquirir ativos que não atendessem a tais parâmetros (PwC, 2023). Assim, antes de ser um compromisso ético, o ESG configura-se como uma ferramenta de proteção patrimonial e de gestão de riscos financeiros.
A despeito da difusão do discurso ESG, os indicadores globais de desigualdade e degradação ambiental permanecem alarmantes. Relatório da Oxfam (2016) revelou que, em 2015, pela primeira vez na história, o patrimônio do 1% mais rico do mundo ultrapassou o acumulado dos demais 99% da população.
Entre 2020 e 2023, os cinco indivíduos mais ricos ampliaram suas fortunas em 114%, enquanto cerca de cinco bilhões de pessoas tornaram-se mais pobres. No Brasil, 63% da riqueza nacional está concentrada nas mãos de 1% da população, e metade dos brasileiros detém apenas 2% da renda total. A Oxfam alerta que, mantido o ritmo atual, a erradicação da pobreza levaria aproximadamente 230 anos (OXFAM, 2024).
Do ponto de vista ambiental, em 2024 a temperatura média global atingiu o patamar de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, limite considerado crítico por cientistas. Paralelamente, observa-se o avanço de governos de orientação neoliberal e negacionista, que promovem a desregulamentação ambiental e trabalhista, muitas vezes financiados por corporações que ostentam selos ESG.
No contexto brasileiro, o Ranking Merco Responsabilidade ESG 2023 lista empresas como Itaú, Ambev, Bradesco, Coca-Cola, McDonald’s, Riachuelo e Aurora Alimentos entre as mais bem avaliadas. Todavia, essas mesmas organizações acumulam histórico de violações trabalhistas, assédio moral e adoecimento ocupacional.
Em 2023, a Aurora Alimentos foi flagrada explorando trabalhadores em condições análogas à escravidão. Tais contradições expõem a distância entre a retórica corporativa e as práticas concretas.

A eleição de Donald Trump, em 2016, representou um ponto de inflexão na viabilidade da agenda ESG. Em 2025, já em seu segundo mandato, diversas corporações norte-americanas, como Walmart, Google, Microsoft e Meta, anunciaram a redução ou o encerramento de programas de diversidade, equidade e inclusão, alinhando-se à pauta conservadora dominante. Essa conduta tende a se disseminar globalmente, desvelando o caráter conjuntural e oportunista de muitas das políticas empresariais de sustentabilidade.
Diante da persistência das crises ambiental e social, torna-se evidente que os desafios da sustentabilidade não podem ser superados por iniciativas pontuais ou estratégias de marketing corporativo. É necessária uma revisão crítica do paradigma do desenvolvimento contínuo e ilimitado.
A agenda ESG, embora se apresente como solução moderna para os desafios socioambientais, opera nos limites do capitalismo financeiro e, assim, reproduz as desigualdades e contradições do próprio sistema que o sustenta. Não passa de uma fraude neoliberal.
O neoliberalismo é uma experiência fracassada, porque suas premissas estão erradas, causaram absurda concentração de renda. Nos últimos quarenta anos, a concentração de renda triplicou, sem que isso trouxesse qualquer benefício para o conjunto da sociedade. Na livre economia de mercado, sem qualquer interferência do Estado, apenas os mais ricos são favorecidos.
O mercado não tem o condão de se autorregular e a combinação de salários baixos e endividamento familiar não pode gerar crescimento, que só é possível com distribuição de renda. O objetivo central de assegurar lucros aos acionistas das grandes empresas impede a distribuição de renda e enseja graves crises sociais de potencial explosivo.
Modelos alternativos, como o “Donut Economics” (RAWORTH, 2017), propõem a conciliação entre as necessidades humanas básicas e os limites planetários. O modelo define um “anel interno”, que representa o mínimo necessário para uma vida digna, e um “anel externo”, que delimita o teto ecológico que não deve ser ultrapassado.
O espaço entre ambos — a “massa” do donut — corresponderia à zona segura e justa para a humanidade. Embora tal abordagem apresente experiências pontuais de implementação, como em Amsterdã, sua adoção em escala global enfrenta as barreiras estruturais do neoliberalismo e da competitividade internacional.
A despeito da aparente preocupação com questões sociais e ambientais, tais modelos funcionam nos marcos da produção capitalista, dominada pelas “forças que hoje empurram a humanidade para o abismo da autodestruição”, e “a cada nova fase de protelação forçada, as contradições do sistema do capital só se podem agravar, trazendo consigo um perigo ainda maior para a própria sobrevivência da humanidade”.
A superação do horror patrocinado pelo capitalismo e pela racionalidade neoliberal só será possível pela “progressiva reaquisição pelos indivíduos dos poderes alienados de tomada de decisões” (MÈZAROS, 2003).
Referências
CMMAD. Nosso futuro comum. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991.
ELKINGTON, J. Cannibals with forks: the triple bottom line of 21st century business. Oxford: Capstone Publishing, 1994.
MERCO. Ranking Merco Responsabilidade ESG 2023. https://www.merco.info/files/2024/06/1963/resultados-merco-responsabilidade-esg-br-2023.pdf
MÉZÁROS, I. O século XXI: socialismo ou barbárie. São Paulo: Boitempo, 2003.
OCDE. OECD Long-term Scenarios for the World Economy to 2060. Paris: OECD Publishing, 2014.
ONU. Who Cares Wins: connecting financial markets to a changing world. Nova York: United Nations, 2004.
ONU. Acordo de Paris. Paris: United Nations Framework Convention on Climate Change, 2015.
OXFAM. An economy for the 1%. Oxford: Oxfam International, 2016.
OXFAM. Inequality Inc.: how corporate power divides our world and the need for a new era of public action. Oxford: Oxfam International, 2024.
PwC. Asset and wealth management revolution 2023: the new context. PricewaterhouseCoopers, 2023.
RAWORTH, K. Doughnut economics: seven ways to think like a 21st-century economist. Londres: Random House, 2017.
