O Ministério Público de Milão investiga se milionários italianos pagaram para participar de “safáris humanos” durante o cerco de Sarajevo (1992–1996), viajando em fins de semana a posições sérvio-bósnias nas colinas para atirar em civis por diversão.
A apuração nasce de denúncia formal do escritor Ezio Gavazzeni e reabre indícios trazidos pelo documentário Sarajevo Safari (2022), com tipificação por homicídio voluntário agravado por crueldade e motivos abjetos. Suspeitos já identificados devem ser ouvidos nas próximas etapas, com cooperação bósnia em discussão.
No material em análise, surgem os “cecchini de fim de semana” — expressão usada na imprensa italiana para designar civis endinheirados que, sem vínculo militar direto, se deslocariam nos fins de semana ao norte da Itália, passariam por Trieste e Belgrado e, guiados por unidades sérvio-bósnias, atirariam em moradores antes de voltar à rotina na segunda-feira.
“Cecchini” é o plural de cecchino (sniper, em italiano) e o rótulo destaca justamente a periodicidade turística dessa violência. Relatos citam pagamentos elevados — com tarifas ainda mais altas para atingir crianças —, um detalhe que agora entra no circuito oficial da justiça italiana.
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Parte dessas ações teria mirado a área que ficou conhecida como Sniper Alley — o conjunto de avenidas largas (Ulica Zmaja od Bosne e o Boulevard Meša Selimović) que liga o aeroporto e a zona industrial ao centro histórico.
Os prédios altos e as encostas ao redor ofereciam campo aberto aos atiradores; moradores cruzavam correndo trechos descobertos ou se abrigavam atrás de blindados da ONU, sob avisos improvisados.
Se a autoria material em episódios concretos for demonstrada, a justiça italiana pode levar o processo adiante mesmo décadas depois, em razão do enquadramento por homicídio qualificado. O caso, que reacende feridas do cerco e a discussão sobre “turismo de guerra”, entra agora numa fase decisiva de identificação nominal e teste de evidências.
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