A sombria Subcomissão Especial dos Direitos dos Presos do 8 de Janeiro segue gastando tempo e recursos da Câmara dos Deputados para ecoar discursos de foragidos e criminosos. Na audiência desta quarta-feira (27), o show de horrores persistiu, garantindo espaço para mais demonstrações golpistas de fanatismo político-religioso.
Alvo de processos nos Estados Unidos relacionados a supostos esquemas fraudulentos e lavagem de dinheiro, o primeiro a dar as caras foi o neto da ditadura, Paulo Figueiredo. Ele agradeceu ao presidente Donald Trump pelas tarifas impostas ao Brasil e exaltou o avô golpista. João Figueiredo foi o responsável pela anistia ampla no período autoritário, que beneficiou presos políticos e perseguidos, mas impossibilita, até hoje, que torturadores e abusadores sejam responsabilizados pelos seus crimes.
Presidida pelo deputado Coronel Meira (PL-PE), a relatoria é, claro, do próprio criador, Zucco (PL-RS), que soltou um “Alan, tamo contigo” antes de passar a palavra para o presidente. Meira usou a tribuna para acusar Alexandre de Moraes e, também, exaltar o primeiro foragido da noite, o excremento ideológico Allan dos Santos. Dotado de um inacreditável vitimismo (e uma gravata borboleta bordô), ele fez publicidade de seu canal nas redes antes de engrenar na velha narrativa de perseguição política. Dos Santos encerrou sua degradante participação chamando Alexandre de Moraes de criminoso.
O terceiro envolvido na trama também posou de exilado, direto dos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro (PL-SP) não demorou para chamar o ministro do STF de “gângster” e “mafioso”. Ele afirmou que as ordens dadas a Moraes viriam de Lindbergh Farias, o “novo diretor-geral da Polícia Federal”, confabulou Eduardo, que definiu como “disfunção” do Brasil essa realidade que ele mesmo tinha acabado de inventar. O “Zero Três” prosseguiu com mais ameaças — avisando que a situação de Alexandre de Moraes ainda pioraria — e exacerbando uma estranha arrogância carregada de viralatismo. Uma combinação que o coloca em um limbo de identidade cultural, que o faz parecer cada vez menos brasileiro.
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Depois dos expatriados e de algumas falas da Mesa, foi a vez da base aliada garantir um tempinho de palanque. O deputado Gustavo Gayer (PL-GO) foi o primeiro, seguido de várias figurinhas marcadas do bolsonarismo, como Carlos Jordy (PL-RJ), Hélio Lopes (PL-RJ), Gilvan da Federal (PL-ES), Sanderson (PL-RS), Capitão Alden (PL-BA) e Bia Kicis (PL-DF). Como mencionei antes, um verdadeiro show de horrores. Gayer, envolvido mais de uma vez em episódios de embriaguez ao volante, incluindo um acidente que matou três pessoas, pediu gratidão “em nome do povo brasileiro” pelas sabotagens perpetradas nos Estados Unidos.

A sala já se esvaziava quando Alessandra Faria Rondon, condenada a 17 anos de prisão, entrou na sessão por videoconferência. Ela falava da Argentina e também utilizou a ocasião para atacar Alexandre de Moraes e o sistema eleitoral ao afirmar ter ido “lutar por um Brasil melhor”. Alessandra reiterou que o 8 de janeiro foi uma reação a uma suposta fraude nas contagens. É mais uma prova clara de tentativa de dissolução violenta do Estado Democrático de Direito, crime com penas de até 8 anos de prisão. Sua proximidade com Eduardo Bolsonaro também ficou clara no depoimento, quando relatou a visita dele a seu esposo, preso na Argentina:
Eu olhei dentro dos olhos do Eduardo Bolsonaro e falei o quanto estava difícil porque eu tinha perdido tudo
afirmou Alessandra.
Ela relatou que está passando por uma série de problemas e finalizou a fala com um apelo à moda antiga. Com uma bíblia na mão, reinterpretou passagens e misturou contextos.

Outros denunciados e condenados também encontraram espaço para discursar. Lorena Sales e Natália Fonseca, ambas rés nos processos do 8 de janeiro, aproveitaram a videoconferência para reforçar a narrativa de perseguição, enquanto Cristina Medeiros Freire se apresentou em tom quase confessional, dizendo-se vítima de injustiça mesmo após ser citada em diversas ações penais. Até Oswaldo Eustáquio Filho reapareceu, reincidente em ataques contra a democracia, posando novamente de mártir político.
O saldo da audiência foi claro: longe de discutir direitos humanos, a subcomissão tornou-se um palanque para foragidos, condenados e cúmplices de golpe. Uma vitrine institucional, bancada com recursos públicos, que transforma criminosos em porta-vozes de uma narrativa revisionista.
