Com a chegada do calor, as redes sociais voltam a se encher de desafios, dietas e promessas de transformação corporal. É o chamado “projeto verão”, que todos os anos reaparece embalado em discursos sobre “autocuidado” e “vida saudável”. Mas até que ponto essa busca por um corpo “de verão” tem a ver, de fato, com saúde e não com pressão estética?
O ideal do corpo perfeito, reforçado pela indústria da beleza, continua sendo um dos motores de insatisfação entre mulheres. De acordo com especialistas, o problema não está em querer cuidar do corpo, mas na forma como esse cuidado é apresentado: quase sempre atrelado à magreza e à ideia de que só um tipo de corpo merece ser visto.
A nutricionista Marina Schneppendahl explica o que o termo “projeto verão” mostra que ainda existe uma ideia de que o corpo precisa ser moldado ou ajustado para ser aceito. “Ele coloca a estética na frente da saúde, como se o importante fosse como o corpo aparece e não como ele funciona. Isso reforça uma lógica de curto prazo, de correção, que ignora que o corpo tem ritmo, história e necessidades individuais”, destaca.

“Essa cultura faz com que a alimentação vire uma fonte de cobrança, não de cuidado. Muitas mulheres passam a comer com culpa, a se comparar o tempo todo e a sentir que ‘nunca está bom o suficiente’. Isso fragiliza a autoimagem e pode gerar uma relação rígida, ansiosa ou até sofrida com a comida quando, na verdade, comer é uma necessidade básica e também uma forma de prazer e conexão”, acrescenta.
A pressão para emagrecer rapidamente, comum nessa época do ano, costuma vir acompanhada de dietas restritivas e promessas de resultados milagrosos. Além de ineficazes, essas práticas podem comprometer o metabolismo, afetar o humor e gerar uma relação de culpa com a comida.
Segundo a profissional, dietas restritivas e metas de emagrecimento rápido oferecem riscos físicos e emocionais. “Fisicamente, dietas restritivas podem causar perda de massa magra, cansaço, queda de cabelo, compulsão e o famoso efeito sanfona. Emocionalmente, podem gerar medo de comer, culpa, sensação de fracasso e uma relação muito desconectada com o próprio corpo. Quando buscamos resultados rápidos, geralmente a conta chega e quem paga é a saúde, especialmente a mental”, alerta.
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Ela ainda reforça que é preciso diferenciar o que é cuidado do que é pressão estética: “A mensagem muda de cuidado para cobrança: como se só fosse saudável quem se parece com um ideal específico. Mas saúde não tem um único formato. A gente precisa diferenciar o que é cuidado genuíno do que é pressão estética travestida de saúde”, afirma.
Para Marina, um projeto ideal seria voltado ao bem-estar e não ao padrão de beleza. “Seria um projeto contínuo, não sazonal. Voltado a construir rotina, não a restringir alimentos. A fortalecer o corpo para ter mais disposição e saúde mental, não para caber em um biquíni. A se alimentar com consciência, prazer e presença, não com culpa. Quando a gente cuida do corpo com gentileza e constância, a estética pode até vir, mas como consequência, não como exigência”, ressalta.
Mais do que preparar o corpo para o verão, talvez seja hora de preparar o olhar para reconhecer o quanto o autocuidado foi sequestrado pela lógica do consumo e da comparação. Porque o verdadeiro “projeto verão” pode ser outro: o de se permitir existir sem culpa, vestir o que quiser e celebrar o corpo real, do jeito que ele é.
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