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Aniele Marinho: a educadora que cura sua infância ao cuidar de outras vidas

A história da carioca Aniele Marinho começa antes mesmo de ela compreender o que significava “ir morar na rua”. Aos cinco anos, as lembranças são fragmentadas, mas carregadas de marcas profundas. Ela recorda que tudo começou com a morte da avó materna, um ponto de virada que desestruturou a vida que conhecia. Sem o amparo da família, sua mãe, que trabalhava como empregada doméstica, foi obrigada pelos irmãos a deixar a casa onde viviam. Nos dias seguintes, o mundo das duas se reduziu aos fundos de uma garagem, onde dormiam enquanto sua mãe tentava se manter no emprego.

Uma das memórias mais vívidas dessa época envolve uma boneca. Aniele, ainda muito pequena, deixou o brinquedo que pertencia à patroa da mãe cair. O acidente custou o emprego da mãe e desencadeou uma sequência de instabilidades ainda maiores. Sem ter onde ficar com a filha, ela recorria a amigas para cuidar de Aniele, mas nem sempre encontrava proteção: em uma dessas casas, a menina chegou a sofrer agressões físicas, enquanto a mãe buscava desesperadamente reconstruir algum tipo de segurança.

Nesse período, a mãe de Aniele conheceu um homem que trabalhava em uma empresa de ônibus e dormia em um pequeno quartinho de madeira na garagem. A convivência naquele espaço improvisado durou pouco. Ele se mostrou violento, agredia a mãe com frequência, e logo ela precisou fugir, agora com um segundo filho nos braços. Na tentativa de reorganizar a vida, matriculou Aniele em uma creche comunitária na Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro.

Pouco tempo depois, sua mãe iniciou um relacionamento com um homem que vendia bebidas alcoólicas nas ruas e dormia sob marquises. Aos cinco anos, Aniele passou a acompanhar os dois e esse foi o começo de sua vida em situação de rua. Uma trajetória marcada por perdas, rupturas e violência, mas também por uma força que, anos mais tarde, ela transformaria em propósito e trabalho social.

Aniele e o irmão. Foto: Karin Zindel

Nas ruas, Aniele Marinho aprendeu cedo a sobreviver. Vendia balas, pedia moedas, buscava no improviso aquilo que a infância deveria oferecer sem esforço. Quando tenta lembrar de como era a vida antes da rua, as imagens são poucas, quase todas relacionadas à perda, à expulsão, ao medo. Mas as lembranças da rua, essas vieram cedo demais e ficaram.

Ela viveu sem teto, andando de um lugar para outro, dos cinco aos sete anos. Em situação de rua, permaneceu dos cinco aos dezenove. Mesmo quando, aos sete anos, sua mãe conseguiu alugar um quartinho em um cortiço graças à ajuda de um homem, a rua continuava sendo mais casa do que o próprio quarto. O espaço alugado era um cômodo sem banheiro, com um sanitário coletivo do lado de fora, dividido com outras famílias. Não havia móveis, eletrodomésticos, nada que desse a sensação de permanência. Era apenas um lugar para dormir, quando dava. O dia a dia continuava sendo vivido nas calçadas.

Foi nesse quartinho improvisado que, aos sete anos, Aniele sofreu um dos episódios mais traumáticos de sua vida: um abuso cometido pelo padrasto. Ele foi pego em flagrante, fugiu, mas acabou sendo preso, julgado e condenado. Cumpriu dez anos de detenção. A lembrança mais vívida desse período, além da violência, é a imagem de sua mãe pedindo perdão.

“Tenho uma lembrança bem clara dela me pedindo perdão por ter colocado ele na nossa vida”, disse.

Mesmo depois disso, a situação de rua continuou fazendo parte da rotina das duas. A mãe de Aniele, marcada por muitas dores e feridas ao longo da vida, tinha dificuldade em exercer um cuidado que não passasse pela sobrevivência bruta. Em muitos momentos, a violência que sofrera se transformava na forma como criava a filha: batia para forçá-la a pedir dinheiro, a trazer algum recurso que garantisse o aluguel, a comida, a continuidade.

“A minha mãe era uma mulher que sofreu muito, às vezes não sabia como ser uma mãe carinhosa, cuidadosa, por diversas vezes me batia para poder pedir esmola, para que eu levasse dinheiro para que ela conseguisse pagar aluguel e manter nossa sobrevivência”, relata.

“Foi um processo extremamente doloroso entender que eu tinha uma mãe, que ao mesmo tempo que me amava, estava ali me colocando numa situação de extrema violência, porque era a maneira que ela achava que tinha para a gente sobreviver”, lamenta.

Aos poucos, ainda na infância, Aniele começou a descobrir pequenos pontos de luz em meio à escuridão da rua. O primeiro deles veio escondido dentro de bancas de jornal. Ela tinha por volta de sete anos quando um jornaleiro da Praça São Pedro, na Rua das Flores, percebeu a menina parada diante das capas coloridas da Turma da Mônica. Todos os dias, ela se sentava ali, hipnotizada pelos quadrinhos. Até que ele passou a lhe emprestar os gibis com um único pedido: que não amassasse, porque depois precisaria vendê-los.

“Eu fui autodidata. De tanto que eu vi aqueles gibis, eu aprendi a ler. E todos os dias eu ficava horas ali namorando as revistinhas. Tudo que chegava de novidade eu via. Minha mãe diversas vezes me batia, porque não era para eu estar ali, era para estar pedindo esmola, era para estar vendendo bala. Eu sentava escondida às vezes no meio das plantas para tentar fugir dessa realidade que eu vivenciava nas ruas, fugir desses medos, desse trauma que era ter que escapar de diversas violências”, explica.

O segundo grande ponto de virada surgiu quando ela tinha 16 anos. Um amigo da rua a convidou para participar de um projeto de circo social. Ela foi pela comida. O café da manhã, o almoço e o lanche eram o que a levavam até lá. Mas, aos poucos, o circo foi abrindo outro tipo de fome: a fome de possibilidades. Entre malabares, pernas de pau, palhaçaria e oficinas sobre direitos, cidadania e autoestima, Aniele descobriu que a vida podia ser diferente.

“Descobri o que era ser uma pessoa com direitos. O que era ser uma cidadã, o que e quais são os deveres que eu tinha com a sociedade, que eu poderia transformar minha realidade estudando, que eu teria um futuro se eu tivesse focado em estudar, em me comprometer com a transformação da minha história”, relata.

“E levou tempo para que eu me percebesse fazendo parte de uma realidade diferente daquela que eu estava acostumada, porque até então eu não imaginava que toda aquela miséria, toda aquela violência que eu vivia, que aquilo ali estava errado e que eu poderia viver diferente”, acrescentou.

Aniele se declara fortemente contra a meritocracia porque conhece, na própria pele, o que significa nascer dentro de uma estrutura que reforça a exclusão e a invisibilidade.

“Não tá na rua só quem quer, não tá na rua só quem não tem força de vontade, tem pessoas que têm oportunidade, mas ainda não se vê ocupando certos espaços, parece que aquele espaço não foi preparado para você. Porque essa estrutura social de olhar a pessoa que tá na situação de rua com tanta invisibilidade, olhar com o olhar de pena, de coitadismo. Isso faz com que a gente às vezes permaneça naquele ciclo vicioso de miséria e pobreza”.

O projeto social foi, então, esse espaço construído para que ela pudesse existir como cidadã. Com apoio dos educadores, ela voltou a estudar. Terminou o ensino fundamental e continuava em situação de rua, mas agora carregava perspectivas. Mesmo assim, a escola nunca foi simples. Faltava material, faltava sapato e sobrava vergonha. Também havia culpa: se ela estivesse na sala de aula, não estaria pedindo dinheiro para ajudar a mãe a pagar o aluguel. Era uma escolha cruel que nenhuma criança deveria precisar fazer.

“Ali era um espaço que não era para mim. Eu não tinha motivação para estar naquele espaço, eu tinha vergonha de ir para aquele lugar. E eu tinha uma outra motivação para não estar ali, que era ir para as ruas pedir para ajudar minha mãe no sustento da nossa casa. Porque a gente só comia se eu ia fosse para rua pedir. A gente só pagava aluguel se eu fosse para a rua pedir esmola”, explicou.

A virada definitiva veio aos 19 anos. Depois de anos tentando empregos formais e conseguindo apenas bicos, Aniele recebeu uma ligação no orelhão da rua onde morava. Era o projeto social oferecendo uma vaga de trabalho. Assinaram sua carteira.

“Eu não queria depender financeiramente de uma pessoa com ajuda, com assistencialismo. Eu queria ser a pessoa responsável pelo trabalho e pelo sustento da minha família. […] E depois dessa oportunidade eu realmente transformei minha história”, comemora.

Com o primeiro salário, fez uma promessa à mãe: “Nós nunca mais vamos para a rua.” Cumpriu. Sustentou a família, pagou aluguel, colocou comida na mesa. A mãe ainda tentou voltar algumas vezes, por hábito, por dependência emocional da rua — mas Aniele insistiu, segurou firme, e juntas conseguiram romper o ciclo.

Ela terminou o ensino médio no EJA (Educação de Jovens e Adultos), tentou o Enem cinco vezes até conseguir uma bolsa do ProUni para cursar pedagogia. Não concluiu naquela época, mas se formou como educadora, começou outra graduação, parou, voltou e hoje cursa pedagogia novamente.

Aniele hoje, aos 38 anos. Foto: acervo pessoal.

Hoje, aos 38 anos, é casada, mãe de três filhos e inspiração diária para eles. Sua mãe, que antes tinha apenas a segunda série, voltou a estudar, chegou ao oitavo ano e quer continuar. As duas se apoiam: Aniele paga para que ela cuide dos netos, e isso permite que ela trabalhe e estude. Uma reconstrução coletiva.

Quando fala sobre educação, Aniele não fala só de salas de aula. Fala da banca de jornal. Fala da escuta atenta dos educadores do circo. Fala das pessoas que a enxergaram como cidadã, quando a maior parte da sociedade a tratava como ninguém.

“Esse processo educacional, essa escuta valiosa, essa abordagem diferenciada para uma pessoa que viveu sempre em situação de rua e que não tinha acolhida, que não era vista como uma pessoa como sujeito de direito, então todo esse processo educacional que me cercou foi importante para que eu chegasse aonde eu estou hoje, para que eu hoje em dia me percebesse como uma pessoa capaz de alcançar o mundo”, ressalta.

Livros

Aniele tem quatro livros publicados. “Rua das Flores”, onde conta sua história de superação, e também os livros infantis “Ruca Peiduca”, “Pedro e a Mariposa” e “Quem a Mamãe Ama Mais?”, obras que dialogam com afeto, identidade e infância. Aniele usa sua voz e seus livros para inspirar esperança, oportunidades e transformação social.

Segundo ela, escrever seu primeiro livro foi parte fundamental de um processo de transformação que ela ainda vivencia. A obra, conta, não nasceu apenas para registrar os episódios difíceis da infância em situação de rua, mas para reafirmar que a mudança é possível, sobretudo quando alguém, em algum momento, decide enxergar o que a sociedade costuma ignorar.

“Foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida nesse período de transformação, porque é um livro em que eu não tô só narrando todos os fatos que eu vivi, mas estou mostrando que é possível acreditar na transformação de uma pessoa que está em situação de rua”, disse.

Para ela, a verdadeira virada não está apenas na oportunidade que chega, mas no conjunto de elementos capazes de prepará-la: visibilidade, acolhimento, compreensão e, principalmente, uma escuta cuidadosa. Aniele insiste que ninguém vive a rua pela mesma razão, segundo ela, existem histórias marcadas por rupturas familiares, outras por questões de saúde mental ou por crises que se acumulam até perderem o nome. Por isso, afirma, qualquer política ou prática precisa reconhecer a singularidade de cada trajetória.

“Ninguém é igual a ninguém. Nem todo mundo que tá em situação de rua tem a mesma história. ‘Vamos pegar todo mundo, colocar no abrigo e dar comida e tá tudo bem’. Não é isso, as pessoas querem afeto, elas querem cultura, elas querem arte para sobreviver. E a arte me ajudou também”, reforça.

Nesse percurso, a arte teve papel decisivo. A música, o circo e a linguagem circense, diz ela, abriram caminhos para que pudesse enxergar a vida por ângulos menos duros, mais sensíveis. “A arte me ajudou a querer viver”, resume.

Críticas às políticas higienistas

Ao refletir sobre a chamada “visão higienista” presente em parte das políticas públicas voltadas à população em situação de rua, Aniele Marinho demonstra preocupação com a forma como governos e parte da sociedade ainda enxergam esse tema. Para ela, a lógica que tenta “limpar a cidade” ignora um princípio básico: uma comunidade só se torna segura e coesa quando reconhece que todas as pessoas fazem parte dela, inclusive aquelas que vivem às margens.

“Para que eu entenda que o meu bairro, que minha cidade pode ser uma cidade segura, uma cidade em que as pessoas se respeitam, em que as políticas públicas funcionem para todos, eu preciso enxergar o outro como igual. E quando eu vejo o outro como diferente de mim, quando eu vejo outro à parte, à margem, eu não consigo ver ele participando dessa coesão social”, declara.

Segundo ela, sem esse reconhecimento, torna-se impossível construir políticas públicas eficazes. No entanto, observa que muitos reduzem o cuidado a um argumento individualista: “Se você se importa, leve para sua casa”. Para Aniele, isso demonstra incompreensão sobre o papel da sociedade e do Estado em garantir direitos.

A educadora lembra que a transformação real exige políticas estruturadas, voto consciente e ações que superem a lógica de prosperidade para poucos. O discurso de que “a favela venceu”, diz, não corresponde à realidade da maioria das pessoas que continuam submetidas a jornadas exaustivas, transporte precário e ausência de oportunidades. “A vitória só virá quando todos prosperarem”, afirma.

Para Aniele, mães que saem de casa antes do amanhecer e retornam à noite, sem tempo para acompanhar os filhos, fazem parte de um problema estrutural, e não individual, que empurra crianças e adolescentes para as ruas.

Ela reforça que a proteção à infância, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, é dever da família, da comunidade, da sociedade e do Estado. Mas muitos ainda acreditam que os impactos sociais se limitam ao espaço privado de cada casa, ignorando que todos estão sujeitos às consequências da desigualdade. “Problemas sociais só se resolvem com políticas sociais”, resume.

Cura

Foto: acervo pessoal.

A trajetória de Aniele, que hoje atua como educadora social na Associação REMER, no Rio de Janeiro, é marcada por uma compreensão profunda das vulnerabilidades que atravessam a infância e a adolescência. Parte dessa sensibilidade nasce das experiências que viveu ainda pequena, quando enfrentou a realidade das ruas ao lado da mãe. No entanto, ela faz questão de destacar: não foi apenas a vivência da situação de rua que moldou sua atuação, mas, principalmente, a forma como foi acolhida ao longo desse percurso.

“A maneira como eu fui acolhida nesse processo, as pessoas que passaram por mim. Hoje em dia eu curo a infância que eu vivi com o trabalho que eu realizo com outras crianças, com outras famílias”, disse.

É desse entendimento que surge sua dedicação à profissão: a convicção de que vínculos positivos podem ser decisivos na vida de alguém.

“Eu não me vejo em outra profissão, que é buscar contribuir com a transformação de outras vidas, ajudar outras pessoas a ressignificarem suas histórias”, enfatiza.

No cotidiano de seu trabalho, isso se traduz em prática. Aniele se envolve, observa, escuta e reconhece nos comportamentos desafiadores como o de um adolescente que “toca o terror” durante uma atividade, não uma afronta, mas um pedido de atenção. Ela busca alternativas, adapta oficinas, propõe novos caminhos. Acima de tudo, oferece acolhimento onde muitos esperariam apenas disciplina.

Transformada pela empatia que recebeu, Aniele hoje replica o gesto. Seu compromisso é ser, para outras crianças e adolescentes, aquilo que tantas pessoas foram para ela: uma presença capaz de abrir portas, enxergar potencialidades e ajudar a ressignificar histórias.

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Maria Coelho

Jornalista com experiência em veículos como a Agência Estadual de Notícias do Paraná. Integra atualmente a equipe do Brasil Fora da Caverna.

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