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Três feminicídios, um mesmo fundamento – escalada fascista de Trump e a inflamação das milícias feminicidas

Foto: Charly Triballeau/AFP via Getty Images

O assassinato de Renee Nicole Macklin Good, em Minneapolis, não pode ser compreendido como um “incidente isolado” nem como um desvio operacional de agentes do Estado. Ele ocorre no interior de uma escalada política marcada pela radicalização autoritária, pelo recrudescimento do nacionalismo xenófobo e pela militarização da vida civil nos Estados Unidos sob o regime de Donald Trump. Trata-se de um contexto no qual políticas migratórias, policiamento racializado e retórica de guerra interna se combinam para produzir mortes evitáveis — e, em seguida, narrativas destinadas a justificá-las.

Renee Nicole Macklin Good foi morta por um agente armado do aparato estatal federal. O fato é este. O que se seguiu à sua morte, porém, é igualmente revelador: antes mesmo que investigações fossem concluídas, iniciou-se uma campanha de deslegitimação pública da vítima. Sua biografia foi esquadrinhada seletivamente, aspectos de sua vida foram deslocados de contexto e sua condição de vítima passou a ser relativizada em nome de uma suposta “ordem” ameaçada.

É nesse ponto que a atuação de Elon Musk, proprietário da plataforma X, torna-se politicamente incontornável. Musk utilizou seu perfil pessoal — que alcança dezenas de milhões de pessoas — para comentar o caso, amplificando publicações de terceiros que colocavam em dúvida a inocência de Renee Nicole Macklin Good, insinuavam vínculos inexistentes ou irrelevantes com ilegalidades e deslocavam o foco da violência praticada pelo Estado para a moralização da vítima. Não se trata de opinião privada: trata-se do uso de um megafone global para legitimar a suspeição, relativizar a morte e corroer a possibilidade de luto público.

Esse tipo de intervenção não é neutro. Ao retuitar conteúdos difamatórios ou insinuantes, Musk não apenas opina: ele estrutura o campo discursivo no qual a vítima passa a ser julgada postumamente. A violência, assim, não termina com o disparo que matou Renee. Ela prossegue na arena simbólica, convertendo a vítima em ré e o agente armado em executor de uma suposta necessidade histórica.

Esse mecanismo — matar e depois difamar — não é novo. No Brasil, ele se manifestou de forma brutal após o assassinato de Marielle Franco. Executada por homens ligados à dinâmica miliciana, Marielle foi alvo imediato de campanhas massivas de desinformação que buscavam associá-la ao crime organizado, justificar sua execução e negar-lhe o estatuto de vítima política. O mais grave é que tais campanhas não partiram apenas de perfis anônimos, mas foram endossadas ou reproduzidas por autoridades públicas, parlamentares e agentes do Estado.

Assim como no caso de Renee Nicole Macklin Good, a difamação pós-morte de Marielle Franco não foi um efeito colateral, mas parte integrante da violência. Ela tinha — e tem — uma função política precisa: matar a vítima uma segunda vez, agora no plano simbólico, tornando sua morte aceitável, compreensível ou mesmo desejável aos olhos de parcelas da sociedade.

Se recuarmos ainda mais no tempo, encontramos o mesmo padrão no assassinato de Rosa Luxemburg, em 1919. Rosa foi morta por membros dos Freikorps, milícias paramilitares de extrema-direita compostas por ex-combatentes, toleradas e instrumentalizadas pelo Estado alemão. Esses grupos são precursores diretos das SA nazistas, assim como os camisas negras de Mussolini e as falanges franquistas desempenharam papel semelhante em seus respectivos contextos históricos.

Rosa Luxemburg foi espancada, humilhada, executada e lançada a um canal. Depois disso, foi difamada como irresponsável, traidora e culpada pelo caos político. Também aqui, a misoginia não foi acessória: foi estrutural. A violência contra sua vida foi inseparável do ódio à sua inteligência, à sua liderança e à sua recusa em aceitar o lugar subalterno reservado às mulheres na política.

Renee Nicole Macklin Good, Marielle Franco e Rosa Luxemburg foram mortas por homens implicados em dinâmicas milicianas ou paraestatais, em contextos de crise política e avanço autoritário. Em todos os casos, essas milícias funcionam como expressões extremas de dispositivos patriarcais naturalizados: masculinidade armada, culto à força, desprezo pela vida considerada descartável e ódio às mulheres que desafiam a ordem.

O patriarcado, é preciso dizer com clareza, não mata apenas mulheres. Ele mata homens, pessoas racializadas, dissidentes, pobres. No entanto, como demonstra Silvia Federici em Calibã e as bruxas e em Caça às bruxas e capital, o patriarcado moderno se edifica prioritariamente sobre a marginalização, a repressão, a exploração e o aniquilamento das mulheres. Desde a caça às bruxas medieval — intensificada em períodos de crise econômica e reorganização produtiva — até o capitalismo contemporâneo, a violência contra mulheres é elemento constitutivo da ordem.

Quando mulheres avançam politicamente, culturalmente e cognitivamente — como ocorre com os feminismos, os movimentos antirracistas e decoloniais — o patriarcado entra em crise e reage. Não apenas com resistência, mas com violência exemplar.

Como observa Márcia Tiburi em Ninfa morta, a mulher assassinada é frequentemente transformada em objeto de narrativa masculina. Sua morte é recontada de modo a neutralizar seu sentido político. Ela deixa de ser sujeito e passa a ser argumento — quase sempre contra si mesma.

No capitalismo de plataforma, esse processo é potencializado pela falsolatria: a adoração fetichista da mentira, amplificada por algoritmos, monetizada pela economia da atenção e legitimada por figuras de enorme poder simbólico. A difamação torna-se escalável, rentável e funcional ao autoritarismo. As plataformas e seus bilionários não são espectadores: são agentes ativos desse ecossistema de violência simbólica.

Estamos, portanto, diante de uma disputa concreta sobre quais vidas merecem reconhecimento público, luto e justiça. A difamação pós-morte serve precisamente para negar esse reconhecimento, convertendo a vítima em culpada e a violência em necessidade.

Esses três feminicídios — o de Renee Nicole Macklin Good, o de Marielle Franco e o de Rosa Luxemburg — revelam algo fundamental: o patriarcado se torna mais violento quando entra em crise. Crise econômica, crise política, crise cultural e crise cognitiva. Desde a caça às bruxas até o fascismo clássico, e deste ao autoritarismo digital contemporâneo, a lógica se repete.

Elas não são vítimas isoladas da história. São sintomas. Pensá-las juntas não é um exercício retórico, mas um gesto crítico indispensável para compreender o presente. Nomear essa violência é parte da luta. Recusar a difamação é um dever ético. Insistir na memória das vítimas é uma forma elementar — e urgente — de resistência política.

Jean Wyllys

Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Foi deputado federal por dois mandatos. Autor, entre outros livros, de O anonimato dos afetos escondidos (Tusquets, 2025),Falsolatria (Editora Nós / Edições Sesc SP, 2024) e O que não se pode dizer (Civilização Brasileira, 2022).

Jean Wyllys

Jornalista, escritor e artista visual, pesquisador da Open Society e professor-visitante no Afro-Latin American Research Institute do Hutchins Center de Harvard.

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