O historiador e cientista político Juliano Medeiros assumiu a presidência nacional do PSOL em 2017 com apenas 34 anos, tornando-se o mais jovem dirigente de uma legenda partidária no país até então. Permaneceu no cargo até 2023, quando voltou a dar aulas, e passou a organizar o Instituto Futuro, espaço dedicado a discussão da democracia, da renovação das esquerdas e a crise climática.
E é justamente em relação a esse último tema que ele tem uma visão ampliada sobre como deve ser abordada. Para o ativista, mais do que a questão ambiental, essa crise é uma oportunidade sem igual de discutir a fundo um novo modelo de sociedade e desenvolvimento, que não esteja calcado no consumismo e na exploração do trabalho.
Com essa mesma lucidez, ele também critica a dualidade entre as lutas sociais e econômicas e as chamadas pautas identitárias.
Acho que a esquerda deveria evitar essa armadilha de opor luta de classes a luta por direitos sociais contra as opressões. A gente deveria fazer o contrário. Buscar a conexão entre elas. Reconhecer que a luta contra o racismo é uma luta estrutural por um novo modelo de sociedade, assim como a luta contra o machismo, contra a homofobia, contra as injustiças
afirma, em entrevista ao Brasil Fora da Caverna.
Ele fala ainda sobre o papel do PSOL na esquerda brasileira, os desafios do campo progressista para 2026 em meio às mudanças avassaladoras que o mundo vivencia em nosso tempo.

Aproximação com Lula
A aproximação com Lula foi um processo bastante natural que se deu em 2022. Principalmente, por um lado, pelo reconhecimento de um trabalho que a gente fazia nessa área de esquerda de produção de debate, de conteúdo. Por outro, pela importância que o momento colocava. A gente estava vivendo um momento de muita polarização, de muito risco. A minha posição pessoal e a posição do Instituto Futuro era de se colocar ao lado das forças que estavam dispostas a defender a democracia, os direitos sociais.
E o Lula era a principal liderança que aglutinava essas forças. Foi um processo bastante tranquilo de aproximação, conversas que se deu ali durante as eleições. Eu acho que é um, um processo que é importante e que deve continuar. E que não se esgota nas eleições. O debate que se coloca no país vai muito além de simplesmente eleições. É um debate que se coloca sobre que tipo de país a gente quer. Que tipo de sociedade, de modelo de desenvolvimento a gente quer.
Papel do PSOL
A bancada do PSOL na Câmara é uma das que mais se destaca na Câmara dos Deputados. Primeiro, porque tem posições muito firmes, claras. Segundo, porque tem vozes muito potentes. Você tem a Erika Hilton, tinha o Guilherme Boulos até o outro dia, Luiza Erundina, a Talíria Petrone, o Pastor Henrique Vieira. Quer dizer, são nomes muito potentes e simbólicos de lutas, causas que estão representadas nessas vozes.
E, além disso, o PSOL tem sido muito ousado na crítica aos limites da política econômica que nos é imposta por um legado de políticas de ajuste neoliberal que já vai mais de uma década. Na defesa de agendas que outros partidos nem sempre estão dispostos a defender. Eu uso sempre o exemplo da Erika Hilton. Quem imaginou que uma liderança, uma mulher trans, negra, que para muitos é vista como portadora de ‘causas identitárias’, entre aspas, seria a principal voz pelo fim da escala seis por um na Câmara dos Deputados.
Então, isso mostra uma capacidade de se reinventar, de liderar certas agendas que eu acho que é disso que se trata um partido de esquerda. A capacidade que ele tem de pautar o debate na sociedade, no seu próprio campo também, influenciar os seus aliados, buscar, de alguma forma, ajudar os seus aliados a avançarem. Eu acho que o PSOL tem feito isso. Não há dúvida que a força hegemônica da esquerda brasileira é o PT, e isso será assim por muito tempo.
Mas eu acho que o PSOL vai se credenciando, não para ser uma sombra, um partido de segunda categoria na esquerda brasileira. Mas para ser um protagonista. Acho que está completamente afastada a ameaça do PSOL não se consolidar ou não se viabilizar na política brasileira. Com 350 mil filiados, 14 deputados federais, dezenas de deputados estaduais e com lideranças da envergadura de um Guilherme Boulos, de uma Erika Hilton, de uma Sônia Guajajara, o PSOL tá pronto para ajudar a discutir na esquerda brasileira e na sociedade os rumos do Brasil.
COP 30
Eu participei de várias atividades na COP. O nosso instituto promoveu, em parceria com outras entidades e movimentos sociais também, uma série de espaços para refletir sobre a COP. Essa COP, diferente das anteriores, no Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Egito, foi com muita participação social, atravessada pela participação dos movimentos sociais. Isso deu, de fato, um caráter muito mais político. Nós tivemos nas COPs anteriores, um debate talvez muito restrito aos governos, técnicos, especialistas. E essa foi atravessada pela pressão popular. Inclusive, isso se manifestou na forma de protestos do movimento indígena, atingidos por barragens, a marcha com mais de 70.000 pessoas nas ruas de Belém reivindicando justiça climática.
Segundo, fazer a COP na Amazônia, porque houve muita pressão para que não acontecesse em Belém. O governo do presidente Lula, a ministra Marina Silva e o André Corrêa do Lago, presidente da COP, bancaram a decisão de fazer em Belém. E toda aquela catástrofe que se previu, que Belém não ia ter leitos, não ia ter comida, ia ficar inviável, colapsar a cidade, nada disso aconteceu. Pelo contrário, as pessoas ficaram maravilhadas com a Amazônia, o povo de Belém, do Pará. Então, também foi uma COP que, de alguma forma, chamou a atenção para um elemento fundamental do combate à crise climática, que é a preservação ambiental, a preservação da Amazônia.
Em termos de resultados, ela ficou no meio do caminho. Não é uma COP que reproduziu a frustração da COP 29 em Baku, que era prevista para discutir financiamento climático e como pagar a conta da transição. A COP de Baku não conseguiu chegar numa saída satisfatória para isso. Então, nós não chegamos nessa, não ficamos nessa frustração. A COP de Belém produziu resultados importantes, triplicando os recursos para adaptação climática, criando um plano de adaptação para área da saúde, o conceito de aceleração de implementação para aquilo que já está acordado desde Paris.
Não foi uma COP de maus resultados, mas nem todos os resultados que se esperavam foram atingidos. Embora o documento final tenha incluído uma menção ao papel dos povos indígenas, dos povos afrodescendentes, à justiça climática, ela não tocou talvez no principal, um dos dois principais problemas: recursos para preservação ambiental, das florestas e o tema dos combustíveis fósseis, que é um tema talvez mais sensível hoje no debate climático. Agora, é engraçado porque, mesmo sem ter incluído uma menção explícita aos combustíveis fósseis, nunca uma COP debateu tanto os combustíveis fósseis. Mas um fato pelo qual a gente pode reconhecer que uma COP aberta, plural, atravessada pela pressão social e popular é bem-vinda.
Crítica global
A crise climática, apesar da gravidade, da ameaça que representa traz também para a esquerda a oportunidade de fazer uma crítica mais global ao modelo. A COP é um evento de governos. É mediada pelas realidades nacionais. Cada governo leva a sua agenda, mas também tem que responder à sua condição doméstica, às suas necessidades internas. Em alguns países, o ambiente doméstico permite posições mais avançadas ou mais radicalizadas, em outros lugares não.
No caso do Brasil, especificamente, da esquerda brasileira, teve um avanço nessa COP. Porque, vamos lembrar que, algumas semanas antes o Ibama emitiu a licença para pesquisa no bloco 59 da bacia sedimentar da Foz do Amazonas. E isso gerou um desconforto no movimento socioambiental brasileiro. Ainda não é a licença de exploração de petróleo, mas a gente sabe que a partir dessa pesquisa e de uma eventual exploração no bloco pela Petrobras, outras multinacionais que adquiriram blocos no leilão da ANP este ano poderão explorar petróleo na região. Ou seja, nós podemos ter a Chevron, a Exxon, a Shell, multinacionais petroleiras, explorando petróleo perto da Amazônia e com isso aumentando muito os riscos de acidentes ambientais ali na região.
Esse mal-estar estava colocado. Mas a posição do Brasil durante a COP, e em particular do André Corrêa do Lago, de se aproximar da Colômbia, por exemplo, que hoje é o país que mais está avançado nessa discussão, melhorou muito o ambiente. Uma vez que houve um esforço genuíno do Brasil para colocar o tema dos combustíveis fósseis no centro do debate. Eu acho que isso também, se a gente pensar na esquerda brasileira e na nossa condição aqui, ajudou a destravar o debate.
O debate estava muito colocado entre ser contra ou ser a favor da exploração do petróleo. Sendo que, quem tem a consciência de que é necessário uma transição para a superação dos combustíveis fósseis não quer fechar a Petrobras amanhã, parar a exploração de petróleo amanhã, gerar insegurança energética para o país. Então, esse argumento de radicalidade do movimento socioambiental é falso. Da mesma forma que uma parte de quem defende a exploração do petróleo também não é simplesmente um negacionista climático, está preocupado com emergências que estão colocadas.
Acho que a gente conseguiu diminuir esse hiato e criar condições para que a esquerda tenha uma agenda mais unitária em relação à crise climática. E acho que, pouco a pouco, a esquerda brasileira vai reconhecendo que a crise climática, a transição é uma oportunidade para discutir um modelo alternativo ao capitalismo e ao neoliberalismo.
Eu tenho defendido muito isso. De que a gente olha a crise climática como uma emergência, algo grave, mas também como uma oportunidade de propor algo alternativo. Aliás, uma oportunidade que nós não tínhamos há muito tempo. Talvez desde a crise de 2008, a grande crise do neoliberalismo, quando o sistema financeiro foi questionado, a relação dos governos com o capital financeiro foi exposta. Desde 2008, a gente não tinha uma oportunidade de fazer um questionamento tão frontal ao modelo.

Rede Futuro
A Rede Futuro e o Instituto Futuro são instrumentos para que a gente pense essa nova etapa histórica que nós entramos, com a crise do neoliberalismo, e tenha a capacidade de propor saídas numa esquerda renovada e conectada com os dilemas do nosso tempo.
O Instituto Futuro, ele nasce como uma demanda, primeiro, de uma rede de lideranças de esquerda, do que eu chamo de nova esquerda latino-americana. Uma geração de dirigentes políticos, militantes, ativistas sociais, que reconhece a necessidade da esquerda se renovar. E aí, se renovar, não é só em termos de nomes, de ter novas lideranças, isso também é importante, mas de renovar suas agendas, repertórios, práticas políticas. De colocar no centro da sua agenda temas que outras gerações não perceberam como tão relevantes, como a questão democrática, direitos humanos, igualdade de gênero, combate ao racismo, a luta contra as mudanças climáticas, justiça redistributiva.
Sem deixar de reconhecer a importância que a chamada ‘Onda Rosa’ de governos progressistas teve para a América Latina, os governos do Lula, do Evo Morales, do Néstor Kirchner, do próprio Chávez, do Tabaré Vázquez e do Mujica no Uruguai, a gente olhar o além, um pouquinho mais para frente.
O Instituto Futuro tem como grande propósito ajudar a renovar os repertórios, as agendas, o programa das esquerdas na América do Sul em particular. Para isso, a gente promove uma rede que é chamada Rede Futuro, onde estão presentes lideranças como o próprio Gabriel Boric, presidente do Chile, a María José Pizarro, senadora da Colômbia, Pacha Sánchez, que é o principal ministro do governo do Yamandú Orsi, no Uruguai, Axel Kicillof, que é o governador da província de Buenos Aires, o Guilherme Boulos, aqui do Brasil.
É um espaço para reunir essa geração política que está preocupada em dar respostas às mudanças que a gente está vivendo no mundo. Mudanças do mundo do trabalho, climáticas, geopolíticas, comportamentais. A esquerda só vai ser capaz de produzir uma conexão real, genuína, com as preocupações do povo brasileiro, latino-americano, se ela for capaz de interpretar quais são as demandas, as angústias, as expectativas do povo. Uma esquerda desconectada dessas expectativas vai ser incapaz de produzir alternativas.
O Instituto Futuro é um espaço para ajudar a pensar alternativas, uma agenda socioambiental integradora das nossas realidades nacionais. Porque não dá para enfrentar o problema do desmatamento no Brasil se a gente não tiver aliança com a Colômbia, a Venezuela, o Peru, o Equador, a Bolívia, com os países da Pan-Amazônia. Não dá pra gente combater o crime organizado só na perspectiva nacional, é um fenômeno transnacional. Não dá pra gente enfrentar o problema dos nossos sistemas tributários, altamente concentradores de renda e de riqueza, sem pensar em termos de cooperação regional.
A Rede Futuro e o Instituto Futuro são instrumentos para que a gente pense essa nova etapa histórica que nós entramos, com a crise do neoliberalismo, e tenha a capacidade de propor saídas numa esquerda renovada e conectada com os dilemas do nosso tempo.
Porque o que o neoliberalismo faz é exatamente tentar separá-las. Transformar a luta contra o racismo numa luta apenas por reconhecimento. Aplaudindo quando há uma pessoa negra na bancada do Jornal Nacional, mas se negando a garantir direitos, políticas redistributivas e empoderamento real.
Luta de classes X Identitarismo
Eu penso que a esquerda deveria evitar cair na narrativa neoliberal de que a luta contra o racismo é uma luta identitária. Ao fazer isso, a gente está fazendo o jogo do inimigo. Ao pensar que se trata de uma luta por reconhecimento. No caso brasileiro, se trata de uma luta por uma nova estrutura social, porque o racismo não é um fenômeno apenas cultural, ele é um fenômeno econômico, social e político no Brasil.
De modo que eu não consigo reproduzir de forma confortável essa divisão. Me parece que a luta contra o racismo é uma luta estrutural por uma nova sociedade, a luta pelos direitos das mulheres é uma luta estrutural contra o patriarcado, que é um elemento fundante do capitalismo brasileiro. A luta por outros direitos afirmativos, de alguma forma, está atravessada pelas lutas econômicas.
Acho que a esquerda deveria evitar essa armadilha de opor luta de classes a luta por direitos sociais contra as opressões. A gente deveria fazer o contrário. Buscar a conexão entre elas. Reconhecer que a luta contra o racismo é uma luta estrutural por um novo modelo de sociedade, assim como a luta contra o machismo, contra a homofobia, contra as injustiças.
Eu vinha no caminho conversando com um amigo e mencionava o próprio exemplo da luta socioambiental. Não deveria ser uma caixinha nos debates da esquerda, como a gente trata saúde, educação, habitação, meio ambiente. Não, a luta ambiental é e pode ser uma luta transversal, onde a gente debate modelo de sociedade, de desenvolvimento econômico, emprego, o papel do Estado, o sistema tributário para poder financiar as políticas de mitigação, adaptação, compensação de perdas e danos.
De alguma forma, acho que a gente deveria fugir dessa armadilha. Buscar uma posição mais integradora dessas lutas. Porque o que o neoliberalismo faz é exatamente tentar separá-las. Transformar a luta contra o racismo numa luta apenas por reconhecimento. Aplaudindo quando há uma pessoa negra na bancada do Jornal Nacional, mas se negando a garantir direitos, políticas redistributivas e empoderamento real. Então, é, acho que a gente deveria trabalhar nessa perspectiva mais integradora e mais intersecional, para usar a palavra teoricamente correta dessas discussões.
Planos
Eu fiquei muitos anos na direção do PSOL. Ao todo foram 15 anos no Diretório Nacional, 10 anos na Executiva Nacional, desses desse período todo, seis anos como presidente. Fui o presidente mais jovem de partido político, quando eu assumi o PSOL, aos 34 anos, e busquei dar uma contribuição importante para que o PSOL crescesse e se viabilizasse.
É claro que, apesar de hoje estar dando aula, dirigindo o Instituto Futuro, ter outros projetos na área socioambiental, na comunicação, enfim, é óbvio que eu estou sempre a postos para ajudar o PSOL como o partido decidir.
Acho que no ano que vem, o PSOL, obviamente, tem que estar na campanha do presidente Lula, tem que estar plenamente engajado para reelegê-lo. Hoje o PSOL tem dois ministros no governo, a ministra Sônia Guajajara, nos Povos Indígenas, o Guilherme Boulos, na Secretaria-geral da Presidência. E acho que o PSOL tem uma contribuição importante para dar num segundo governo do presidente Lula, porque não serão poucos os embates e as lutas que a gente vai ter que travar para continuar o processo de reconstrução do Brasil, derrotar definitivamente o bolsonarismo e diminuir o peso, pelo menos, que o Centrão e a direita oligárquica têm na política brasileira.
No meu caso, a gente está debatendo o que é melhor para o PSOL. Eu considero que nesse momento vai ser bem importante o PSOL enfrentar o tema da cláusula de barreira, e isso envolve eleições para deputado federal. O PSOL hoje tem uma bancada importante, mas tem companheiros e companheiras que, obviamente, vão cumprir outras tarefas, ser candidatos ao Senado, o próprio Guilherme Boulos, que hoje é ministro.
Estou discutindo com o PSOL a possibilidade de uma candidatura à Câmara Federal no ano que vem. Estamos conversando, avaliando, mas eu vou estar à disposição, porque como um militante partidário, vou estar a serviço daquilo que o PSOL considerar o mais adequado e para ajudar, porque independente das demandas que estão colocadas para as eleições do ano que vem, acho que todo militante de esquerda, nesse momento, tem que estar com as mangas arregaçadas, pronto para lutar pelo Brasil, pela democracia, pelos direitos sociais. Essa é a minha história, e é essa história que eu quero levar para a eleição do ano que vem.
Boulos
O Boulos se tornou, do meu ponto de vista, o principal nome da renovação na esquerda brasileira nesses últimos anos. Um cara que entendeu a importância do movimento social, da mobilização de rua, da firmeza de princípios, da combatividade, sem deixar de fazer alianças, construir sínteses, de cooperar para movimentos e objetivos maiores.
Acho que o Boulos é hoje a grande voz dessa geração de esquerda que está chegando. Eu abonei a ficha dele no PSOL, então tenho uma baita de uma honra de ser amigo, companheiro, mas de ter facilitado a vinda dele para o PSOL.
Acho que ele cumpre um papel muito importante na Secretaria-geral da Presidência e é um parceiro que eu conquistei para a vida, para a militância política. Alguém em quem eu confio, respeito e que eu acho que vai fazer coisas muito grandes pelo Brasil. Eu espero poder estar perto desse amigo, desse irmão para poder ver essas conquistas de perto.
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