Duas imagens publicadas por Elon Musk em seu perfil no X condensam, de forma exemplar, a lógica simbólica do imperialismo contemporâneo mediado por plataformas digitais. Elas não informam; operam. Não descrevem fatos; produzem efeitos. São atos políticos travestidos de imagens — e, como tais, exigem leitura crítica rigorosa.

A primeira imagem, uma fotomontagem produzida por inteligência artificial, encena a humilhação de Nicolás Maduro por meio de uma gramática visual profundamente racista e homofóbica. A cena de encarceramento ativa fantasias bem conhecidas do imaginário masculinista norte-americano: a punição sexual como castigo político, o corpo latino como subalterno, o corpo negro como ameaça hipersexualizada. Nada ali é acidental. Trata-se de um repertório simbólico historicamente associado ao encarceramento em massa e à violência racial nos Estados Unidos.
Susan Sontag advertiu, em Diante da dor dos outros, que as imagens de sofrimento raramente ampliam nossa compreensão moral do mundo. Elas tendem, ao contrário, a confirmar crenças prévias e a reforçar hierarquias entre vidas que importam e vidas descartáveis. A falsa universalidade do “nós” — esse “nós” confortável que se imagina solidário apenas por olhar — é uma das armadilhas centrais do consumo contemporâneo de imagens.
A imagem publicada por Musk, no entanto, vai além da anestesia moral descrita por Sontag. Ela celebra a violência. Não se limita a mostrar o sofrimento do outro: transforma-o em escárnio, em espetáculo compartilhável, em pedagogia política. Ao fazê-lo, legitima simultaneamente a agressão imperial contra povos considerados subalternos e exploráveis e a violência estrutural contra populações racializadas dentro do próprio Estado norte-americano. O inimigo externo e o inimigo interno passam a ser governados pela mesma gramática simbólica da punição.
É nesse ponto que Frantz Fanon se impõe com toda a sua atualidade. Em Pele negra, máscaras brancas, Fanon analisa a economia libidinal do racismo colonial, mostrando como o corpo negro é fantasiado, temido e sexualizado como forma de dominação. As obsessões racistas em torno da sexualidade do homem negro — inclusive as fantasias recorrentes sobre o tamanho de seu pênis — não são desvios grotescos, mas dispositivos centrais de poder. A imagem de Musk mobiliza exatamente esse inconsciente colonial: a violência sexual insinuada não é um excesso obsceno, mas um mecanismo simbólico de submissão.
A segunda imagem publicada por Musk parece, à primeira vista, mais sóbria. Trata-se de uma fotografia com referente real: um jantar luxuoso ao lado do presidente dos Estados Unidos. Mas a legenda dissolve qualquer neutralidade possível. Não se trata de convivialidade privada, mas de sinalização pública de aliança. Musk — e, por extensão, os demais bilionários das plataformas — anuncia sua convergência com um projeto político que já abandonou qualquer verniz moral e passou a assumir abertamente o interesse imperial no petróleo venezuelano.
Se a primeira imagem ensina quem pode ser humilhado, a segunda ensina quem governa.
É aqui que o conceito de falsolatria se torna decisivo. Não se trata apenas da circulação de imagens falsas ou manipuladas, mas da transformação da falsidade em objeto de culto. Nas plataformas digitais, a imagem não precisa ser verdadeira para ser eficaz; precisa ser mobilizadora. Ela convoca afetos, organiza ódios, produz pertencimento. Musk não atua como um simples usuário influente, mas como oficiante de uma liturgia cínica, na qual a mentira, a crueldade e a desigualdade são celebradas como sinais de força.
Minha pesquisa sobre fake news e desinformação digital mostra como as plataformas deixaram de operar prioritariamente no registro da informação para se tornarem máquinas de produção de crença. Elas engendram aquilo que denomino subjetividade de seita: uma forma de adesão afetiva baseada no culto a líderes, na simplificação paranoide do mundo e na necessidade constante de inimigos. Nesse regime, a imagem não explica; ordena. Não representa; substitui a realidade.
Susan Sontag escreveu que a compaixão é um afeto instável e que, se não se traduz em responsabilidade política, rapidamente se esgota. O que vemos hoje é algo ainda mais grave: a conversão da indiferença em prazer e da violência em capital simbólico. A dor do outro não apenas deixa de importar; ela se torna útil, monetizável, performática.
As imagens de Musk não documentam um mundo em colapso. Elas participam ativamente de sua fabricação. São parte de uma pedagogia contemporânea da crueldade, na qual o imperialismo já não precisa se justificar: ele ironiza, ostenta, compartilha — e espera que todos aprendam, olhando, qual é o seu lugar.
Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor, entre outros livros, de O anonimato dos afetos escondidos (Tusquest, 2025), Falsolatria (Editora Nós e Edições Sesc São Paulo, 2024) e O que não se pode dizer (Civilização Brasileira, 2022).
