A trajetória de Yago Oproprio nunca coube em linha reta. Aos 28 anos, ele carrega uma formação que parece construída em camadas: infância entre Itaquera, Mogi das Cruzes e a casa da avó; adolescência em Caracas, onde foi apresentado ao calor da música latina; retorno ao Brasil, que o empurrou para a Cohab II e depois para São José dos Campos; e uma sequência de trabalhos que nada tinham a ver com música.
Depois de passar pelos ramos da massoterapia, vendas e loja de óculos, ele descobriu que o “artista” dentro dele não sobreviveria por muito mais tempo se não respirasse. Quando finalmente investiu o dinheiro do seguro-desemprego para lançar “AK 47”, sua primeira faixa, entrou num caminho sem volta.
O que parecia impulso virou vocação. Em poucos anos, Yago encontrou nas batalhas de freestyle um laboratório de palco e, nos estúdios, um espaço para burilar a mistura de rap, samba, reggaeton, boombap, drill e referências que atravessaram sua vida desde a infância no coletivo teatral Dolores Boca Aberta, criado por seu pai.
Dos festivais Mita e Sensacional ao aguardado show no Circo Voador, da explosão de “Imprevisto” aos 2,8 milhões de ouvintes mensais, ele se consolidou sem atalhos, na base da organicidade, público crescendo música a música, verso a verso.
Esse caldeirão afetivo e sonoro desemboca agora em OPROPRIO, seu primeiro álbum, que chega para ocupar um lugar que os fãs pediam há tempo e que ele só aceitou assumir quando sentiu que sua identidade estava madura. E, ao que tudo indica, veio no momento certo.
Um disco para dizer quem ele é

Lançado em 2024, OPROPRIO marca a estreia de Yago no formato álbum, uma decisão que ele adiou até sentir que tinha algo inteiro a apresentar. Após anos lançando singles e depois o EP O Inquilino, ele entendeu que fazer um disco exigia não apenas público, mas clareza.
Eu precisava de gente me ouvindo antes de tentar algo mais complexo
costuma dizer.
Quando atingiu esse ponto, mergulhou com o produtor Patrício Sid em um processo de dez faixas amarradas pelo boombap, gênero que ele e o produtor sempre amaram e viram como uma forma de “furar a bolha” com um rap mais orgânico, menos automatizado e mais vocal.
OPROPRIO nasce como afirmação: Yago queria um lugar onde pudesse contar sua história sem intermediários. Acostumado a colaborações, e dono de feats marcantes, como a participação no disco de 50 anos de Sabotage, na faixa “Maloca É Maré”, ele ouviu dos próprios fãs que queriam o “álbum só dele”. E isso fez sentido:
Eu estou falando de mim. Não adianta colocar outra pessoa para falar de mim
disse, em entrevista à Rolling Stone.
Sua relação com a música é afetiva, intuitiva: ele não se define como estudioso, mas como alguém que “vê, sente e traduz”.
Apesar do boombap ser o fio condutor, as faixas passeiam por R&B, afrobeat e até ecos de funk, num mosaico que traduz suas referências: a MPB de Chico Buarque, Pedro Luís e Moreira da Silva, o rap de Racionais e Sabotage, a música latina que aprendeu na Venezuela, e a poesia cotidiana que herdou da convivência com o coletivo Dolores.
O álbum não se limita ao som, ganha vida também no audiovisual, com três faixas (“La Noche”, “Inofensiva” e “Jejum”) transformadas em um curta dirigido por Ênio Cesar, Larissa Zaidan e Luis Carone.
A identidade visual também marca essa fase. Com logo nova, cores fortes e um retrato assinado por Rodrigo Branco, o disco consolidou-se com o nome Oproprio após sugestão do diretor criativo Fernando Marar, que descartou o título inicial, “Proprietário”. Não era sobre ascensão social, era sobre essência.
A crônica social nas entrelinhas

O olhar de Yago sobre o mundo nunca foi superficial, e OPROPRIO espelha isso. As letras não se escondem atrás de metáforas: falam do desalento cotidiano, das rotinas de trabalho que engolem tempo e vida, das ilusões rápidas que anestesiam por algumas horas, do peso emocional do capitalismo.
Em “La Noche” e “Inofensiva”, ele costura a noite na quebrada, o consumo como fuga, as tentativas de segurar as pontas quando o corpo já pede trégua. Muita gente chegou até ele por “Imprevisto”, mas é no álbum que sua observação social aparece com mais nitidez, dolorida, mas sem perder a ternura.
“Jejum”, talvez a faixa mais frontal, discute classe social sem panfleto, mas com contundência. Ele fala da vida de quem acorda cedo, pega lotação, tenta sobreviver e ainda assim se vê separado por discursos que a internet amplifica.
A canção defende pautas que unificam (fome, miséria, desigualdade), e provoca: quem tem a mesma dor deveria caminhar junto, não se anular mutuamente.
Esse viés político não surgiu agora. Em 2022, no calor da eleição, Yago lançou “Questão de Tempo”, crítica aberta ao governo Bolsonaro e à ameaça autoritária que pairava sobre o país. Sem citar nomes aliados, mas apontando responsabilidades, a faixa marcou sua entrada num debate que muitos evitam, e reforçou seu compromisso com uma arte que não abandona o lugar de onde veio.
E há ainda “O Desespero de Odete”, de 2021, parceria com Murica, que narra a violência policial que atravessa mães periféricas há gerações. Verso a verso, a música expõe a ferida brasileira sem filtros, ao mesmo tempo em que convoca organização popular como resposta. É um caminho que Yago reivindica para si e para a cena.
Entre a revolta e o afeto: o retrato de um artista inteiro

Embora boa parte das faixas mergulhe na densidade da vida real, OPROPRIO não se prende à escuridão. Há luz em “Fora do Tom”, que flerta com a MPB contemporânea para falar de reconstrução; há consolo em “Melhor que Ontem”, adotada pelos fãs como mantra de cura pós-término; e há irreverência em “Linha Azul”, diário de um dia pulando catracas para economizar uns trocados e comprar salgadinhos. A habilidade de alternar tons, do político ao íntimo, do indignado ao leve, é o que dá ao disco textura de obra viva.
Essa mesma versatilidade explica por que Yago atrai um público tão diverso. Ele canta para quem cresceu entre becos da Zona Leste, mas também para quem nunca pisou numa quebrada. Seu verso traduz experiências concretas, mas as emoções são universais.
E isso transparece no palco: seja no Circo Voador, seja no show esgotado na Áudio, em São Paulo, ele se comporta como quem nasceu para estar ali, sem arrogância, sem afetação, apenas com a certeza íntima de que encontrou seu lugar.
Nos bastidores, Yago segue com a mesma postura. Ri de si mesmo, admite que não domina teoria musical, mas sabe que compõe com o corpo todo.
Fazer música gasta energia
costuma dizer.
Talvez seja esse o segredo: a visceralidade que aparece quando ele canta também está presente quando ele observa, quando escreve, quando escolhe palavras que descrevem o cotidiano sem floreios.
Com OPROPRIO, Yago Oproprio não apenas entregou um álbum, mas sim um capítulo da própria vida. Um disco que poderia ser lido como diário, mapa ou manifesto. Um trabalho que dialoga com a tradição do rap como crônica social, mas também abre janelas para introspecção, amor, humor e cura. Um início que já nasceu grande.
Do menino da Cohab II ao artista que lota casas de show e é indicado a prêmios, Yago atravessa tudo sem abandonar suas raízes. E, se o futuro confirmar o que o presente já anuncia, Oproprio não será apenas o nome de um disco, será a marca de uma geração.
Escute abaixo o álbum “OPROPRIO”:
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