A FLUP, Festa literária das periferias, acontece este ano debaixo do Viaduto da Madureira, no Rio de Janeiro, entre 19 e 30 de novembro. Na programação, brilha a estrela central de Conceição Evaristo, com o objetivo de responder ao convite lançado por Sueli Carneiro na edição de 2024: é preciso reencantar o mundo.
Precisamos reencantar o mundo para não sermos devorados, como já foi o caso outras vezes, pelo fascismo.
Em paralelo a uma ambiciosa programação de debates, shows e filmes, com convidados do mundo todo e das diferentes perspectivas do pensamento e ação antirracista, vamos inaugurar a exposição “Frantz Fanon, revolucionário anticolonial: um programa de desordem absoluta”.
No ano do centenário de Fanon (1925-1961), pensador negro martinicano, psiquiatra, um dos mentores da revolução argelina, a periferia e o Brasil poderão conhecer um pouco mais da sua vida de lutas e da sua escrita de combate, através de textos, imagens e documentos, alguns inéditos no Brasil.

A curadoria da exposição é minha e do antropólogo e professor na UFRGS Handerson Joseph, com Idealização de Júlio Ludemir e arte de Anderson Dias. No prolongamento da exposição, o projeto Códigos Negros apresenta 4 obras digitais de artistas, explorando a inteligência artificial na arte contemporânea.
Tudo indica que se trata da primeira exposição sobre Fanon já feita no Brasil. Mas não será a única. No dia 25/11, o Museu das Favelas de São Paulo também vai abrir uma exposição com obras de diversos artistas produzidas a partir de um diálogo com Fanon: “Imaginação radical: 100 anos de Frantz Fanon”.
No contexto do centenário fanoniano, vários livros foram lançados, pela Ubu, Boitempo e Zahar. O Ano V da Revolução Argelina foi finalmente publicado no Brasil em 2025 (pela Zahar), 66 anos depois da edição em francês (1959). O livro narra as mudanças em uma sociedade em pleno processo de descolonização, o papel e emancipação da mulher, a ascensão de uma nova geração e a mudança no uso das tecnologias de comunicação no contexto (na época, o rádio).
Para Fanon, a revolução descolonial permitia a criação de um novo mundo. Além do livro, nos últimos anos foram publicados no Brasil as excelentes obras de Deivison Faustino e Walter Lippold. Eu também devo lançar um ensaio em breve, a partir da longa pesquisa que fiz para dar fomento à exposição.
O entusiasmo por Fanon no ano do seu centenário é muito diferente e mais forte do que foi a recepção no Brasil da sua obra nos anos 1950 e 1960, um pouco mais tímida, segundo o pesquisador Antônio Sérgio Alfredo Guimarães. E por que essa redescoberta ou descoberta de Fanon hoje no Brasil?
Fanon fala de forma muito autêntica e singular da necessidade de avançar na descolonização e no antirracismo. Frantz Fanon saiu da Martinica aos 19 anos, em 1944, para lutar contra os nazistas, ao lado das forças da França livre. Ali começa o despertar da sua consciência sobre a amplitude do racismo, uma consequência do colonialismo. A Martinica era uma colônia francesa, que se torna departamento de além-mar em 1946.
Depois da guerra, Fanon obtém seu diploma de estudos secundários e volta à França continental para estudar medicina em Lyon, formando-se em psiquiatria. Seu primeiro livro, Pele Negra, máscaras brancas é a tese de doutorado em medicina que não pôde defender, por “não ser suficientemente científica”.
No ensaio, ele discorre sobre o peso do racismo no inconsciente individual e coletivo (embora não use essa palavra), revelando mecanismos invisíveis e invisibilizados.
Depois de uma residência no hospital do sudoeste na França, em Saint-Alban, onde aprende os princípios da socioterapia com François Tosquelles, um importante psiquiatra catalão e refugiado antifranquista, Fanon segue para a Argélia, colônia francesa.
No hospital de Blida-Joinville, ele entende a profundidade do colonialismo. O hospital era organizado em alas separadas, de mulheres europeias e muçulmanas, homens europeus e muçulmanos, repetindo a segregação colonial. Ali, ele busca humanizar a relação com os pacientes e aplicar as inovações da socioterapia, talvez um pouco como Nise da Silveira revolucionou a psiquiatria no Brasil exatamente na mesma época.
Com as mulheres europeias, cria atividade de teatro, festas e um jornal. Porém, ele observa, junto com seu residente Jacques Azoulay, que a terapia social aplicada com as mulheres não tem sucesso com os homens muçulmanos.
Através da observação, percebem que os muçulmanos tinham interesse pelo futebol, pela jardinagem, como antigos lavradores que eram, e que gostavam de se encontrar nos cafés depois do dia de trabalho. Fanon cria um campo de futebol, jardins coletivos e um até mesmo um café mourisco dentro do hospital.

Sua relação de profunda atenção com o povo argelino o leva a se engajar na FLN (Frente de Libertação Nacional) e lutar contra a colonização francesa na chamada guerra de libertação da Argélia, entre 1954 e 1962. A violência colonial se torna para Fanon insuportável, ele pede demissão do hospital em 1956 e é expulso da Argélia pelas autoridades francesas em 1957.
Instalado na Tunísia, país vizinho recém independente, Fanon continua exercendo como psiquiatra na inovação da experiência do hospital-dia, um grande progresso da psiquiatria. Continua escrevendo seus artigos, conferências, textos para o jornal da FLN El Moudjahid, e suas duas últimas obras lançadas em vida.
Continua atendendo na fronteira da Tunísia com a Argélia pacientes traumatizados pela violência da guerra. Atende tanto os algozes franceses como as vítimas e combatentes argelinos. Alguns casos estão publicados no capítulo final de Os Condenados da Terra.
Nesse livro, que começa a escrever no início de 1961, quando já sabia que estava com uma forma grave de leucemia, desenvolve como poucos uma reflexão sobre a violência colonial, sobre os riscos e desafios da descolonização (a traição da burguesia), bem como sua visão sobre a cultura nacional. Ele se torna embaixador do GPRA (Governo Provisório da República Argelina) e busca construir um projeto de União Africana, uma forma de panafricanismo, embora também não utilize este termo.
Muito se falou de Fanon como incitador da luta armada e da violência. Mas isso é uma análise equivocada dos seus escritos. Fanon via a violência como traumática. Para ele, a revolução descolonial era o horizonte libertador, não a guerra em si. Mas escreve, como observador privilegiado, a guerra de descolonização de dentro.
Como psicanalista e psiquiatra, percebe como ninguém como a violência gera violência. A violência da colonização era proporcional à violência da descolonização naquele contexto. Hoje, ler Fanon é de grande utilidade para pensarmos no tema da violência, algo tão necessário.
Fanon descreve a tortura praticada pelo exército francês. Como sabemos, e como mostram os trabalhos de José Roberto Martins Filho, Leneide Duarte-Plon e Rodrigo Nabuco, entre outros, o exército francês formou os militares brasileiros e latino-americanos na prática da tortura, a partir da experiência da guerra da Argélia. Portanto, não somente o Haiti é aqui (e com ele o Caribe francês, de onde vem Fanon), mas a Argélia também tem suas pontes com o Brasil.
Fanon morre no dia 6 de dezembro de 1961, aos 36 anos, 6 meses antes de ver a Argélia independente. Como pedido em seu último desejo, ele é enterrado em terras argelinas, num belo ritual oficial. E é hoje um herói do país, batizando grandes avenidas, escolas e o hospital onde trabalhou.
Na França, algumas cidades de periferia também inauguraram ruas e praças com seu nome, mas a memória ressurge com força na juventude, e ele é com frequência patrono de turmas de graduação, citado em discursos e encontros.
No fim da vida, escreve para seu editor François Maspero, cuja editora publicava autores do pensamento revolucionário e as obras frequentemente censuradas, para pedir que seu livro chegasse aos colonizados do mundo todo, à África e à América Latina.

As exposições, debates e publicações recentes, no “Ano 100 de Fanon”, são portanto uma etapa importante na realização desse seu outro desejo. O legado da obra e vida de Fanon, como pensador e como agente histórico, é um rico material de proposta de uma nova reorganização do mundo para os herdeiros do colonialismo.
A descolonização continua como processo histórico e como revolução a ser feita:
Colonizados de todo o mundo, uni-vos.
