A brigada de solidariedade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) aos atingidos pelo tornado em Rio Bonito do Iguaçu e Guarapuava soma mais de 500 militantes, a partir desta segunda-feira (17). A maior parte do grupo está trabalhando na limpeza de ruas e cobertura, reforma e construção de casas de famílias afetadas pela catástrofe ocorrida no dia 7 de novembro. O coletivo também garante a produção e distribuição de mais de 2 mil marmitas por dia, oferecidas às famílias que ainda estão em condições precárias de moradia.
As ações do MST se somam às iniciativas do poder público local, estadual e federal, de forma coordenada com a Defesa Civil. O tornado deixou sete mortos, mais de 830 feridos, além de mais de mil famílias desabrigadas e um rastro de destruição e dor por onde passou. Bruna Zimpel da direção nacional do MST no PR, reforça que a solidariedade é um princípio de luta do Movimento, de tal forma que as famílias vivenciam esse processo no dia a dia, nos territórios onde vivem.
“Serão longos dias de muitos processos, de muito trabalho, mas estamos aqui colocando toda a nossa solidariedade, toda a nossa energia nesse processo de acolhimento e também de reconstrução”, garantiu.
Os trabalhos de solidariedade do MST tiveram início ainda na noite do dia 7 de novembro, no Centro da Melhor Idade de Rio Bonito do Iguaçu. O espaço foi um dos poucos prédios públicos não afetados pelo tornado, e se tornou um dos locais de produção de marmitas e lanches, recebimento e organização de doações de roupas, alimentos e materiais de limpeza para as famílias atingidas pelo desastre climático.
Comunidades do MST atingidas pelo tornado
A tragédia assolou diversos municípios e milhares de pessoas, entre elas cerca de 350 famílias camponesas Sem Terra, acampadas e assentadas foram atingidas diretamente, nos municípios de Rio Bonito do Iguaçu e Guarapuava.
No assentamento Nova Geração, em Guarapuava, o assentado José Geremias, de 53 anos, faleceu e outras duas pessoas ficaram feridas devido à força dos ventos. O desastre também afetou várias famílias no local, destruindo completamente quatro casas e provocando estragos em outras moradias, galpões e maquinários agrícolas.
Em Rio Bonito do Iguaçu, o perímetro urbano foi o mais afetado, com estimativa de 90% das construções destruídas. As comunidades do MST atingidas neste município foram os acampamentos Herdeiros da Terra de 1º Maio de Maio e Antônio Conrado, e os assentamentos Ireno Alves e Marcos Freire. No município de Porto Barreiro, o acampamento Porto Pinheiro, também foi duramente atingido.
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Além de diversos trabalhadores/as Sem Terra feridos, o tornado destruiu total ou parcialmente barracões comunitários, escolas, casas, estruturas de produção, lavouras e derrubou árvores. Centenas de famílias também foram afetadas indiretamente pelo período de um a dois dias sem energia elétrica, que prejudicou a produção de leite, por exemplo.
Cozinhas solidárias
O MST está organizando o funcionamento de três cozinhas solidárias, com o trabalho de camponeses Sem Terra do Paraná e também vindos do Rio Grande do Sul e apoio do Coletivo Marmitas da Terra. A produção tem sido de 2 mil refeições por dia, entre almoço e jantar, em Rio Bonito do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, e 420 em Guarapuava, entre café da manhã, almoço e jantar. Ao todo, estão sendo atendidas famílias atingidas diretamente e também as equipes de trabalho do próprio MST, que estão trabalhando no apoio às famílias atingidas.
As cozinha solidárias foram instaladas no Centro da Melhor Idade, de Rio Bonito do Iguaçu; na sede da Associação do assentamento 8 de Junho, em Laranjeiras do Sul e no assentamento Nova Geração, em Guarapuava.
“Nesse momento difícil nós do MST unimos nossas forças, com o auxílio dos outros assentamentos e acampamentos no Paraná e companheiros do Rio Grande do Sul, que estão ajudando também. Estamos servindo marmitas ao meio-dia e à noite. Também fornecendo alimentação para alguns assentamentos atingidos”, conta Eliane Foz, assentada e coordenadora da Associação de Mulheres do assentamento 8 de Julho, em Laranjeiras do Sul, que está integrando a cozinha desde a madrugada do dia 8 de novembro.
A assentada também chama atenção para a necessidade das pessoas continuarem doando alimentos para que seja possível que a marmitas sigam sendo confeccionadas para alimentar as famílias afetadas pelo tornado. E que muitas famílias também necessitam de doações para as crianças, como fralda, mamadeiras, entre outros.
A acampada Maria, do acampamento Encontro das Águas, no município de Guarapuava é uma das Sem Terra que está se somando ao trabalho solidário junto às famílias atingidas no assentamento Nova Geração. Ela relembra a importância da solidariedade para as famílias do MST e faz um apelo para que as pessoas continuem doando e ajudando as famílias atingidas.
“A gente tem que pensar mais no próximo. Quanto mais pessoas se unirem, mais rápido a gente reconstrói tudo isso de novo. A gente veio de vários acampamentos para ajudar na organização das doações que estão chegando para as famílias afetadas. Está chegando muita roupa, comida, água e materiais para reconstruir as casas. As pessoas também estão precisando de material escolar para as crianças que perderam tudo”, relata a acampada.
Repetição das catástrofes
Desde o dia 9, domingo, um grupo de militantes do MST do Rio Grande do Sul chegou em Rio Bonito para somar nas ações de solidariedade. O Movimento do estado enviou a doação de cerca de 3 toneladas de alimentos, entre arroz orgânico, feijão, batata e suco natural, além de grandes panelas e muita experiência para somar na cozinha solidária.
O assentado Sergio Reis Marques, conhecido como Chocolate, é membro da direção estadual do MST do Rio Grande do Sul e esteve entre os militantes que vieram a Rio Bonito do Iguaçu. Ele relaciona a situação ocorrida no Paraná com a enchente que assolou o RS em maio do ano passado. O dirigente aponta que catástrofes como essas não podem ser tratadas como fenômenos naturais, mas têm seus responsáveis no modelo do agronegócio, que destrói o meio ambiente e, consequentemente, provoca destruições como estas. Ao mesmo tempo, destaca a importância da agroecologia, com a produção de alimentos saudáveis nas áreas de Reforma Agrária, que possibilita oferecer alimentos de forma solidária às famílias atingidas.
“No último período, como as catástrofes vêm aumentando significativamente, também temos que denunciar esse sistema agroexportador de commodities que não respeita a natureza”, denuncia.
O militante explica a importância da cozinha solidária nesse momento para as famílias atingidas e fala do papel da solidariedade para o MST.
“Essa cozinha tem como objetivo, num primeiro momento, criar condição mínima para que as pessoas consigam se alimentar até começar a se reestruturar […] Não há nada que acolha melhor que o alimento, produzido com amor, com responsabilidade. Acalenta o coração. E esse alimento é produzido por famílias do MST, um movimento solidário, que acredita que todo o ser humano tem o direito de se alimentar três vezes por dia com alimentação saudável, limpa, produzida com amor”, afirma Chocolate.
Famílias do MST doam 26 toneladas de alimentos
A produção das refeições está sendo garantida pelos alimentos doados pela população para as cozinhas solidárias. Entre essas doações, cerca de 26 toneladas de alimentos foram enviados pelas próprias comunidades do MST no Paraná e pela Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), da Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), juntamente com uma brigada de camponesas(es) do estado para ajudar na solidariedade às famílias desabrigadas.
Entre as doações estão cerca de 3 toneladas de alimentos foram trazidos pela brigada de apoio de comunidades do MST do RS, no domingo (9). Já outras 15 toneladas foram doadas por famílias de assentamento e acampamentos da região Norte do estado, chegando na terça-feira (11) e 8 toneladas de alimentos chegaram, nesta sexta-feira (14), a partir de doações de famílias Sem Terra da região Sul do Paraná. As famílias do MST da Região Sudoeste do estado também enviaram doações de alimentos e roupas, que chegaram neste sábado (15). As doações também estão vindo de outras organizações, coletivos e individualmente, de amigos e amigas do Movimento.
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