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Não foi o clima. Foi o projeto político

Rio bonito do Iguaçu
(Foto: Sergio Ranalli/EFE)

O tornado que destruiu Rio Bonito do Iguaçu no dia 7 de novembro não foi uma fatalidade. Foi a consequência direta de décadas de desmatamento, flexibilização ambiental e decisões políticas que rompeu a relação mínima entre território e proteção.

A cidade perdeu cerca de 60% da Mata Atlântica em 30 anos (MapBiomas) e, entre 1985 e 2015, foi o município que mais desmatou o bioma em todo o Brasil, eliminando 24,9 mil hectares de floresta (SOS Mata Atlântica). Quando o vento chegou, encontrou o que a ciência vem alertando há décadas: um território exposto, sem árvores, sem barreiras naturais e com solo superaquecido.

O climatologista Francisco Mendonça (UFPR) foi categórico: áreas planas totalmente abertas funcionam como pista de aceleração para tornados. Árvores salvam vidas. Florestas diminuem a velocidade dos ventos. A ausência delas amplifica a destruição.
Isso não é opinião.

É física. É climatologia. É dado.

O que vimos em Rio Bonito é o retrato de um país que desmontou sua própria proteção em nome da ganância. Nos últimos anos, projetos aprovados por setores da extrema direita e do agronegócio flexibilizaram licenciamento, enfraqueceram controle ambiental e permitiram ao próprio proprietário “autolicenciar” seu desmatamento. É o Estado dizendo: desmate sem culpa — a conta a gente paga depois.

E a conta chegou. Chegou em vidas, em casas, em uma cidade inteira destruída.

Mas a região mostra outro lado, que raramente ocupa o centro da narrativa: o lado de quem cuida. Na mesma terra em que a devastação avançou, atua há quase três décadas o CEAGRO, referência nacional em agroecologia e formação de agricultores familiares. Uma organização que honra o território, ensina convivência com a natureza e cultiva a cultura do bem viver.

E quando a tragédia veio, foi essa cultura — e não o latifúndio — que organizou solidariedade, abrigo, comida e reconstrução. O MST, as comunidades rurais, os pequenos agricultores: todos se levantaram sem esperar decreto, sem esperar ordem, sem esperar sirene. Porque cultura é isso: tecido vivo que sustenta uma comunidade quando tudo desaba.

No primeiro artigo desta série, escrevi que a floresta é cultura. Em Rio Bonito, vi o oposto: a ausência de floresta é também ausência de cultura — de proteção, de memória, de vínculo. Um território sem árvores é um território sem defesa. Um território sem comunidade organizada é um território sem resiliência.

COP30
(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O Brasil chega à COP30 com esse recado brutal: não existe resposta climática possível se continuarmos entregando nossas florestas ao desmatamento e nossas políticas ao negacionismo. A reconstrução de Rio Bonito não será apenas de concreto e telhas; será cultural, comunitária e territorial — ou não será.

As escolhas estão dadas:
➡️ seguir sob a lógica da motosserra, da licença automática, da negação da ciência;
ou
➡️ reconstruir o país a partir de quem cuida: CEAGRO, agroecologia, pequenos agricultores, movimentos populares, comunidades que entendem o território como corpo vivo.

Rio Bonito do Iguaçu não é um acidente.
É o aviso.
E é o limite.

O caminho para evitar novas tragédias está claro: recolocar a cultura, a ciência e a floresta no centro das decisões públicas. Tudo o que ficar fora disso — chamemos pelo nome — é política de morte.

Ps: utilizei informações da ótima reportagem de José Marcos Lopes para o Plural.

João Paulo Mehl

Atua em cultura digital, sustentabilidade e fomento cultural. Coordena projetos na UFPR, no Soylocoporti, no Terraço Verde e no Propulsão Cultural.

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