A história da Rede Elas Negras Conexões começou muito antes de sua formalização jurídica, em 2023. Suas raízes remontam a 2007, quando um pequeno grupo de mulheres quilombolas de Santiago do Iguape, em Cachoeira, no interior da Bahia, decidiu se reunir para criar um espaço próprio de diálogo e fortalecimento.
Na nossa comunidade, tudo que acontecia era muito por parte dos homens, muitas vezes nós mulheres só éramos procuradas como coadjuvante. Então, esse desejo mesmo foi que nos motivou a dizer: ‘Olha, vamos fazer algo nosso mesmo, do nosso jeito, com a nossa cara’. E aí a gente usou muito essa palavra mesmo de se protagonizar
relembra Rosanegra Batista, coordenadora executiva da Rede.
O que inicialmente começou como um encontro pequeno entre Rosanegra, sua mãe, duas primas e algumas amigas, rapidamente se transformou em um movimento de reflexão e ação.
A gente brinca que era tipo o nosso clube da Luluzinha: mulheres falando, pensando, se revolucionando
conta.
Foi dessa convivência, dessas conversas sobre o cotidiano e sobre o lugar da mulher dentro da comunidade, que nasceu o desejo de criar algo próprio, construído a partir das experiências e da visão das mulheres quilombolas. O ano de 2007 marcou também um momento importante para a comunidade, que recebeu oficialmente a certificação como remanescente de quilombo. Esse reconhecimento fortaleceu ainda mais a vontade do grupo de atuar pela autonomia das mulheres e pela valorização das tradições quilombolas.
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Assim, de um encontro entre mulheres que queriam ser ouvidas, surgiu o embrião do que viria a se tornar a Rede Elas Negras Conexões, uma organização que, hoje, articula lideranças negras e quilombolas em prol da igualdade racial, de gênero e da defesa dos direitos humanos.
A Rede conta com uma equipe fixa de cerca de dez pessoas. São mulheres que abrem o espaço, recebem a comunidade, produzem as biojoias na lojinha colaborativa e realizam atendimentos diretos em projetos que atravessam desde segurança alimentar até a preservação ambiental.
Mas o alcance vai muito além de Santiago do Iguape, comunidade quilombola onde a associação está fincada, no Recôncavo Baiano. A atuação se expande para outras comunidades do território, como São Francisco do Paraguaçu, onde, por exemplo, a rede mantém um núcleo de capoeira ao garantir a permanência de um professor e para o quilombo Engenho da Ponte, com ações formativas e articulação conjunta de mulheres negras.
É assim que, pouco a pouco, a Elas Negras Conexões vai se consolidando como aquilo que nasceu para ser: uma rede viva, que se expande, se apoia e se transforma coletivamente.
Projetos
Os projetos da Rede Elas Negras Conexões nascem diretamente das dinâmicas e necessidades do território quilombola de Santiago do Iguape. Para Rosanegra, tudo começa pelo entendimento de que o território é o principal elo de luta das comunidades tradicionais.
A gente trabalha muito com a questão dos direitos de comunidades quilombolas tradicionais e a luta pelo território. Porque viver em uma comunidade quilombola, um dos maiores elos de luta realmente é o território. A preservação dos laços, ancestrais e saberes
afirma.
Grande parte das mulheres que fundaram e hoje compõem a Rede têm histórias marcadas por violência doméstica e familiar. Por isso, além da defesa dos direitos das comunidades quilombolas e da luta pelo território, a organização coloca no centro de suas ações temas como autonomia, autocuidado e enfrentamento à violência.
A partir dessas pautas, surgiram iniciativas estruturadas nas áreas de geração de renda, sustentabilidade, juventude, cultura e inclusão tecnológica.

Um dos principais projetos é o “Omi Wa – Nossas Águas”, voltado à formação de jovens e mulheres negras quilombolas, pescadoras e marisqueiras, para que se tornem guardiãs dos direitos socioambientais do território. A iniciativa surge no reconhecimento de que a preservação dos manguezais, das matas e das águas é, antes de tudo, a preservação da vida quilombola.
Por meio de mutirões, oficinas e atividades de campo, o projeto estimula o cuidado com o território e recupera áreas degradadas, incentivando o plantio de mudas nativas, a limpeza dos rios e o fortalecimento das práticas tradicionais de uso e manejo ambiental.
Os jovens são convidados não apenas a participar das ações, mas também a registrar as memórias do território com o uso de tecnologias digitais, criando narrativas próprias sobre a relação de suas comunidades com a natureza.
A dimensão do cuidado também aparece com força no “Amor no Prato”, projeto que trabalha a segurança alimentar e nutricional das famílias quilombolas. Ele nasce como resposta direta à vulnerabilidade alimentar enfrentada por muitas comunidades do Recôncavo Baiano, oferecendo apoio às produções de pequenas roças e hortas, orientações técnicas para adaptação às mudanças climáticas e, enquanto houver recursos, distribuição regular de refeições e alimentos.

Mais do que matar a fome, o “Amor no Prato” valoriza tradições culinárias ancestrais, fortalece vínculos comunitários e reafirma que alimentar também é educar, acolher e proteger. A iniciativa cresce ancorada na ideia de que segurança alimentar é um direito e uma condição para que mulheres, jovens e crianças possam exercer sua autonomia.
O terceiro grande eixo da Rede é o “Sururuelas”, considerado por Rosanegra o projeto mais robusto e transformador. A ação nasceu de um problema concreto: o acúmulo das cascas de sururu, marisco amplamente consumido e negociado nas comunidades pesqueiras, que vinha gerando degradação ambiental e riscos à saúde, especialmente para as mulheres marisqueiras, que lidam diretamente com os resíduos.

O “Sururuelas” cria uma solução sustentável ao dar novo destino às cascas e transformar o passivo ambiental em oportunidade. A partir de práticas de economia circular, o projeto gera renda, qualifica mulheres negras e estimula que outros grupos repliquem o modelo. Ao mesmo tempo em que diminui o impacto ambiental, amplia a autonomia econômica das mulheres envolvidas e fortalece um ciclo virtuoso de sustentabilidade territorial.
Desafios
Para Rosanegra, um dos maiores desafios enfrentados pelas mulheres quilombolas hoje continua sendo a ausência de políticas públicas efetivas. Em territórios historicamente sobrecarregados por processos de negação e apagamento, o desenvolvimento básico ainda é uma luta cotidiana. Ela explica que essa realidade se reflete tanto na infraestrutura quanto na participação política:
A gente vê como um dos maiores desafios hoje justamente a ausência das políticas públicas. A gente já está em um território historicamente sobrecarregado, com vários lastros de negação histórica, e mesmo assim seguimos lutando por melhorias. Muitas vezes não conseguimos acessar certos espaços, principalmente aqueles que a gente tanto luta para protagonizar
relata.
Ela destaca ainda que os obstáculos vão além da representatividade formal.
A gente perde muito por não ter uma internet acessível, por não ter logística para se deslocar. Falta tecnologia, falta conhecimento técnico. Como somos uma comunidade que vive esses laços comunitários, muita coisa acaba sendo difícil de desenvolver justamente pela falta desse conhecimento. E esse é um dos nossos maiores desafios
declara.
Segundo a mobilizadora, o desafio não é apenas ser ouvida, mas conseguir participar de forma plena e em condições de igualdade de processos que impactam diretamente suas vidas e seus territórios.
Impacto
Se os projetos da Rede Elas Negras Conexões revelam sua força enquanto organização, são as histórias que mostram, de forma mais sensível, o impacto produzido no território. Rosanegra costuma lembrar que alguns dos momentos mais marcantes da trajetória da Rede surgiram justamente de encontros simples: uma distribuição de alimentos, uma oficina de artesanato ou uma roda de conversa. Desses gestos cotidianos, nasceram transformações profundas.
A Rede acolheu essas mulheres oferecendo não apenas uma cesta básica ou uma atividade pontual, mas um espaço de cuidado e pertencimento. Com o tempo, algumas delas passaram a integrar o corpo colaborativo da organização, se qualificaram, aprenderam novas habilidades e encontraram ali uma oportunidade de reconstruir suas trajetórias.
Uma das histórias que a gente sempre conta é a de pessoas que chegaram até nós como atendidas por conta de uma distribuição de uma cesta, ou participar de uma oficina e acabou integrando o corpo colaborativo da equipe da Rede, e hoje dá vários testemunhos falando que estava em quadro de depressão e que com as ações da Rede melhorou a renda, melhorou a autoestima, então a Rede tem isso como impacto
comemora.
Hoje, muitas dessas mulheres prestam serviços para a própria Rede, aumentaram a renda e, sobretudo, recuperaram o senso de valor e de protagonismo. Ela destaca ainda que, embora a Rede tenha surgido do encontro entre mulheres quilombolas, suas ações são abertas a todos e todas que buscam apoio ou desejam colaborar.
O futuro da Rede Elas Negras Conexões se desenha com a mesma força que impulsionou sua criação: autonomia, formação e enraizamento territorial. Para os próximos anos, Rosanegra explica que o foco está em consolidar uma estrutura sólida, capaz de ampliar o alcance das ações e fortalecer ainda mais a formação política de mulheres negras, quilombolas e periféricas.
A gente, por ser uma rede que fortalece e atua muito na formação política de mulheres negras, quilombolas e periféricas dentro dos seus territórios, trabalha com esse movimento de dentro para fora. Estamos numa região com 19 comunidades quilombolas, então o que a gente pensa para os próximos anos é justamente estruturar tudo isso que começamos a construir desde que adquirimos nossa estrutura jurídica
disse.
Esse fortalecimento institucional, segundo ela, não é apenas um objetivo, é uma necessidade diante dos desafios enfrentados pela gestão comunitária.
A gente busca esse desenvolvimento institucional para entender nossos desafios, nossos mecanismos e investir na qualificação interna. Porque nós, enquanto gestoras à frente de uma associação, sabemos que são grandes desafios, então quanto mais qualificada e desenvolvida for essa estrutura, a gente consegue combater e enfrentar os desafios que não são só os desafios do território, mas também da própria estrutura mesmo de se manter, o institucional
ressalta.
Apesar dos avanços, Rosanegra faz questão de lembrar que o caminho da Rede Elas Negras Conexões nunca foi simples.
A nossa caminhada sempre foi muito difícil, muito desafiadora
reconhece.
Ainda assim, há uma escolha consciente de olhar para aquilo que floresce, não apenas para o que falta.
A gente busca muito mais pensar nas histórias de sucesso
diz ela, reafirmando a perspectiva de esperança que sustenta o coletivo.
Esse olhar, porém, não elimina os obstáculos, especialmente os financeiros. A rede, em processo constante de crescimento, enfrenta lacunas estruturais que tornam a captação de recursos um dos maiores gargalos para manter e expandir seus projetos. Por isso, o apelo por apoio é direto e urgente.
A gente sempre pede apoio de voluntários, de pessoas que conheçam o nosso trabalho e se identifiquem, seja na área de comunicação, captação de recursos, alguma área técnica, psicologia, qualquer área ligada aos nossos projetos. Como nós temos muitos desafios, por ser uma associação que tá aí nesse processo de crescimento e desenvolvimento, a captação de recursos sempre vai ser uma lacuna muito grande para a gente nos manter. Então também entendemos que se tiverem outros profissionais que se identifiquem com a nossa luta, possam doar também, ter esse voluntariado, a gente está sempre aberta
enfatiza.
Para Rosanegra, o voluntariado e o compartilhamento de saberes são formas de resistência comunitária.
A gente sabe que o capital intelectual é formado com muita luta. Por isso a gente sempre faz esse apelo: quem puder somar, apoiar os projetos, doar seu conhecimento, a gente agradece demais
ressalta.
A longo prazo, a rede deseja se consolidar como um modelo replicável para outras comunidades quilombolas do país, inspirando grupos que estão iniciando processos semelhantes de organização. Rosanegra deixa uma mensagem que ecoa como um chamado coletivo:
BookmarkA luta pelo protagonismo de estarmos em lugares que desejamos e que podemos estar, é realmente um sonho que nos aspira o tempo todo. Devemos entender que esse sonho pode ser alcançado quando formamos uma grande rede, quando a gente se conecta com outros grupos e movimentos que também desejam o mesmo. Não precisa ser nada isolado, podemos sim coletivamente desenvolver e crescer em rede, com essas conexões, porque a gente pode e deve estar em qualquer lugar
arremata.
