Aos 58 anos, Marisa Monte chega a um ponto que poucos artistas alcançam com vigor intacto: quatro décadas de presença consistente no coração da cultura brasileira. O marco não é apenas numérico. Ele resume uma história que começa na quadra da Portela, passa pelo estudo de canto lírico na Itália, explode em palcos e televisões nos anos 1980 e se consolida como repertório de referência para novas gerações.
Entre álbuns que venderam milhões, turnês internacionais, trabalhos de produção e parcerias decisivas, sua trajetória é um mapa de como a canção brasileira se expandiu sem perder o calor do encontro.
Da Portela ao palco: os primeiros passos
Filha de um dirigente da escola de samba Portela, Marisa cresceu entre ensaios, baterias e melodias que mais tarde se tornariam matéria-prima de pesquisa e de palco. Ganhou uma bateria na infância, estudou piano, mergulhou no canto lírico na adolescência e, ainda jovem, experimentou os bastidores do teatro musical.
Com 18 anos, Marisa fez sua estreia oficial na música com a canção “Sábado à Noite”, um dos temas do filme “Tropclip”. Aos 19, trocou a sala de aula da UFRJ por uma temporada em Roma, onde cavou técnica e fôlego. Voltou ao Brasil com a intuição afiada: o virtuosismo de conservatório só fazia sentido se cruzasse com a pulsação da música popular.

O produtor Nelson Motta percebeu o tamanho desse encontro e dirigiu, em 1987, “Veludo Azul”, primeiro espetáculo que apresentou a potência da intérprete mesmo antes de um disco. Na virada para 1989, um especial de TV se transformou em álbum e VHS: “MM”, a estreia que já nascia rara, gravada ao vivo, afrontando o padrão da época.
Ali, Marisa costurou samba, rock, soul, bossa, standards e canções brasileiras, exibindo um repertório que soava clássico e novo ao mesmo tempo. Em pouco tempo, estava nas rádios, nas novelas e nas listas de mais vendidos, preparando o terreno para o ciclo autoral.
Quarenta anos em discos: uma obra que atravessa gerações

A discografia de Marisa Monte é, por si, um roteiro de transformação. Depois do impacto de “MM” (1989), “Mais” (1991) consolida a artista de estúdio, com produção de Arto Lindsay e a estreia de parcerias que marcariam época, nomes como Nando Reis e Arnaldo Antunes entram em cena, e a cantora passa a alternar versões decisivas com composições novas que se tornam sucessos populares.
O passo seguinte, “Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão” (1994), firma a maturidade. Ali, a artista já divide a produção, injeta percussões, cruza Paulinho da Viola e Jorge Ben Jor com ineditas que pulsam pop sem perder sofisticação. O clipe de “Segue o Seco”, síntese do disco, marca a estética audiovisual dos anos 1990 e amplia o alcance de sua linguagem.
Em “Barulhinho Bom – Uma Viagem Musical” (1996), ela dobra a aposta: metade ao vivo, metade em estúdio, e demonstra que sua assinatura não depende do ambiente, a curadoria de repertório e de timbres garante coerência.
A virada comercial vem com “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000): o amor como centro, arranjos polidos e uma sequência de faixas que dominam o dial e rendem prêmios, sem abrir mão do acabamento artesanal.
O ano de 2006 traz um gesto raro: lançar, no mesmo dia, “Infinito Particular” e “Universo ao Meu Redor”. O primeiro é íntimo, pop e autoral; o segundo, uma imersão na atmosfera do samba carioca, fruto de pesquisa com a Velha Guarda e de resgate de repertório histórico. A duplicidade explicita a tese de sua carreira: tradição e contemporaneidade caminham juntas.

Em 2011, “O Que Você Quer Saber de Verdade” renova o ciclo de parcerias e entrega hits anfíbios, domésticos e de arena. Depois, a coletânea “Coleção” (2016) reorganiza lados B, versões e músicas espalhadas por trilhas, revelando um arquivo vivo.
Na década seguinte, “Portas” (2021) inaugura um capítulo luminoso: escrito e produzido durante os tempos turbulentos de pandemia, o álbum aposta em esperança e amplitude rítmica, do samba ao fado, da bossa ao soul, com colaborações que reforçam a rede criativa construída ao longo de décadas.
Esse percurso inclui ainda o eixo paralelo e incontornável dos Tribalistas, ideia nascida em 2002 e retomada em 2017, que rendeu um cancioneiro inteiro ao vocabulário afetivo do país. No conjunto, são álbuns que frequentam listas de melhores da música brasileira, acumulam certificações e, sobretudo, seguem sendo ouvidos, revisitados e ressignificados por quem chega agora.
Parcerias, Tribalistas e a arte do encontro

Se a discografia registra a artista, as parcerias revelam a artesã. Marisa fez de estúdio e de sala de composição um território de comunhão. Com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, estruturou um triângulo criativo capaz de gerar canções que atravessam idades e plataformas.
Com Nando Reis, costurou melodias que grudam sem ceder ao óbvio. Com Dadi, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Pretinho da Serrinha, Seu Jorge e tantos outros, ampliou timbres, sotaques e mapas rítmicos.
Os Tribalistas são o emblema máximo dessa costura. O primeiro álbum, minimalista e solar, reorganizou a MPB forjando clássicos instantâneos e levando o trio a palcos e premiações. Na retomada, uma década e meia depois, o gesto manteve o espírito: melodias diretas, percussão engenhosa, poesia íntima e social conversando com um público que cresceu junto.
Em paralelo, a cantora nunca abandonou as rotas de mão dupla com o samba, aproximando-se da Velha Guarda da Portela, registrando mestres e reerguendo pontes entre memórias e presente.
Esse trânsito também se vê na forma como Marisa convida e se deixa convidar. Entre duetos e participações, sua voz funciona como cola harmônica: onde entra, organiza o arranjo, clareia a canção e adiciona textura. Não é apenas emissão impecável, é direção artística intuitiva, a serviço do todo.





Produtora, curadora e força de palco: o legado em movimento

A história de Marisa não se escreve apenas com microfone. Desde o fim dos anos 1990, ela montou editora, adquiriu as fitas-mãe de sua obra, criou selo próprio e assumiu a produção de projetos alheios.
Isso inclui discos como “Omelete Man” (Carlinhos Brown), “Tudo Azul” (Velha Guarda da Portela) e registros de nomes que, sem esse empurrão, talvez ficassem semi-invisíveis no circuito.
No cinema, assinou a produção e co-roteiro de “O Mistério do Samba” (2008), um documento afetivo e histórico sobre um repertório que, por muito tempo, sobreviveu na oralidade.
Em cena, a artista manteve um padrão raro de excelência técnica e dramaturgia musical. Dos clubes e teatros dos primeiros anos às grandes arenas, a concepção de show se tornou parte indissociável do trabalho: luz, cenografia, figurino e narrativa dialogam com a banda e com o público, sem firulas sobrando.
Não por acaso, várias turnês viraram DVDs e registros ao vivo que documentam fases, arranjos e encontros, e alimentam quem só a conheceu pela tela.
O reconhecimento veio em ondas: prêmios nacionais e internacionais, presença constante em rankings e listas críticas, homenagens acadêmicas e um público que se renova a cada ciclo. Nada disso explica sozinho a permanência. O que sustenta a relevância é a coerência entre curiosidade e rigor.
Marisa atravessou modas, mudanças tecnológicas e guinadas de mercado evitando tanto o saudosismo quanto a ansiedade por tendências. Em vez de perseguir algoritmos, seguiu ampliando sua própria gramática.
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Quarenta anos, e o próximo capítulo

Quarenta anos de carreira costumam encerrar histórias. No caso de Marisa Monte, o número soa mais como vírgula do que como ponto final. A artista que começou afinando ouvido na Portela, afiou técnica na ópera e pulou do especial de TV para o topo das paradas continua a produzir com método e liberdade. Sua obra é, ao mesmo tempo, arquivo e laboratório: guarda memórias, mas não se contenta com vitrines.
Num país que, volta e meia, tenta reduzir a música popular a rótulos, ela preferiu a travessia, do samba ao pop, da música de câmara ao refrão de estádio. O resultado é um conjunto que educa o ouvido sem afastar a emoção; que cabe na casa, no carro, no fone e no teatro; que permite que um adolescente de hoje encontre, numa música de vinte anos atrás, uma resposta para agora.
Celebrar quatro décadas de Marisa Monte é reconhecer que parte importante da MPB contemporânea aprendeu com seu modo de fazer: pesquisar sem sisudez, comunicar sem simplismo, negociar com a indústria sem se perder.
É também constatar que sua discografia continua em rotação na vida real, aquela das festas, dos amores, das separações, das viagens e dos retornos. Nessa linha do tempo, a melhor notícia é que a obra segue aberta, como as portas que a própria artista insiste em manter entreabertas para o que vier.
Se a trajetória até aqui foi de construção paciente, o futuro aponta para mais trânsitos. Seja em novos projetos de estúdio, em turnês que revisitam arranjos com roupagens sinfônicas ou em criações que devolvem luz a repertórios tradicionais, a marca registrada permanece: a convicção de que a canção brasileira, quando tratada como arte viva, encontra sempre um caminho. Quarenta anos depois, Marisa Monte segue abrindo esses caminhos, e convidando o público a atravessá-los com ela.
Phonica: sinfonia pop para celebrar os 40 anos

Mais do que um luxo orquestral, Phonica funciona como um rito de passagem: um concerto pop que sublinha a força do repertório autoral de Marisa Monte e sua permanência na memória coletiva desde o início dos anos 1990.
Com regência de André Bachur e banda-base afiada (Dadi Carvalho, Pupillo, Alberto Continentino e Pedrinho da Serrinha), o show costura 27 músicas, 18 delas assinadas por Marisa com parceiros como Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, em arranjos inéditos criados por Ubiratan Marques, Newton Carneiro, Thiago Costa, Débora Gurgel e Jether Garotti.
É a passagem de bastão definitiva: a intérprete que chegou como referência cult em 1987 reapresenta a compositora hoje consagrada, sem verniz solene e com a mesma comunicação direta que a levou do teatro às arenas.
A cenografia de Batman Zavareze emoldura sem disputar foco; quem conduz é o cancioneiro, de “Vilarejo” à comoção de “Depois”, passando por clássicos que o público canta de ponta a ponta.
Para quem quer viver essa celebração ao vivo, ainda há ingressos disponíveis para as três últimas apresentações da turnê (15/11 – Curitiba – Pedreira Paulo Leminski; 29/11 – Brasília – Gramado do Eixo Cultural Ibero-Americano; 06/12 – Porto Alegre – Parque Harmonia). A venda ocorre na plataforma oficial do evento.
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