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As pessoas trans ficam e a luta continua!

Bandeira trans
(Foto: Angela Weiss)

Há 43 anos iniciei minha militância pela livre orientação sexual e identidade de gênero. Tenho muito orgulho dessa trajetória, que me transformou em uma das várias vozes do movimento LGBTI+ no Brasil e também no cenário internacional. Desde o início, sempre acreditei em um princípio fundamental: todos nós temos nossa identidade e nossa orientação, e isso é inerente ao ser humano.

Aprendi, ao longo da vida, que essas identidades têm origens biológicas, psicológicas, sociais e culturais. Não é uma escolha. É parte da essência de cada pessoa. Por isso, merecem respeito e reconhecimento. Esse foi o foco central do meu mestrado em Ética e Sexualidade e do meu doutorado em Educação: compreender que a ética do respeito e do consentimento deve guiar todas as nossas relações.

Conquistas coletivas

Nessa caminhada, participei da fundação e do fortalecimento de várias redes. Hoje temos 52 redes nacionais LGBTI+, algumas voltadas especificamente para pessoas trans, lésbicas, gays, bissexuais, pessoas intersexo e muitas de caráter misto. Esse trabalho em rede foi decisivo para conquistas jurídicas, sociais e políticas no país.

O Brasil ocupa o oitavo lugar em direitos humanos formais voltados à população LGBTI+. Hoje, no Brasil, podemos casar, adotar, retificar prenome e gênero nos documentos, doar sangue, entre outras conquistas. Esse resultado não é meu, mas nosso — de todas as pessoas cisgêneras e transgêneras.

É fruto da luta histórica de milhares de pessoas que, com coragem, ergueram suas vozes. Essa história foi construída com todas as letras das siglas, com todas as identidades, com divergências, com acertos e erros, mas sempre com o compromisso de estarmos juntos sob o princípio da unidade na ação.

Princípios que defendemos

Na Aliança Nacional LGBTI+, na ABRAFH – Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas, e na Rede Gay Latino, temos alguns princípios que considero inegociáveis.

Primeiro, não queremos destruir a família de ninguém. Muito pelo contrário: queremos construir, fortalecer e respeitar todas as formas de família. Hoje são reconhecidos 196 tipos de família no Brasil e no mundo — desde a tradicional até a homoafetiva — e todas merecem dignidade e proteção do Estado.

Afirmamos também que toda criança merece respeito, integridade e proteção, como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Defendemos uma educação crítica, baseada na ciência e aberta ao diálogo com a cultura de cada comunidade — sem doutrinação, mas com liberdade de pensamento. Além disso, reafirmamos o respeito às leis e à diversidade cultural dos povos. Nossa causa não é de um partido só. Nossa causa é pluripartidária.

Uma luta sem fronteiras

Minha atuação nunca se limitou ao Brasil. Desde 1989, quando participei do 3º Encontro Brasileiro de Homossexuais e também da 11ª Conferência Mundial da ILGA, em Viena, tenho participado de debates nacionais e internacionais. Acredito que nossa luta não tem fronteiras. Assim como a violência e a discriminação existem em todos os países, as conquistas também podem — e devem — ser globais.

Desafios atuais

Apesar dos avanços conquistados ao longo das últimas décadas, ainda enfrentamos desafios que colocam à prova nossa coesão enquanto comunidade. Nos últimos tempos, surgiu um grupo que defende a exclusão de pessoas trans da sigla LGBTI+.

Diante disso, afirmo de forma contundente e inequívoca: não aceito, e jamais aceitarei, divisões internas. Cada rede, coletivo ou segmento dentro da diversidade sexual e de gênero possui sua especificidade, e todas as formas de organização têm o seu valor. No entanto, pluralidade não pode ser confundida com segregação.

Infelizmente, a violência e a discriminação LGBTIfóbica seguem atingindo a todos nós, independentemente de qual letra da sigla representamos. A transfobia, a lesbofobia, a bifobia e a gayfobia são expressões de uma mesma estrutura de opressão, e nenhuma delas será superada por meio da fragmentação ou da exclusão.

As pessoas trans não são uma pauta recente, tampouco figuras agregadas posteriormente por conveniência política. Elas estiveram presentes desde os primeiros levantes — desde os tempos em que resistir significava arriscar a própria vida.

Hoje, no Brasil e no mundo, as populações trans estão na linha de frente dos ataques mais violentos, e é justamente por isso que o princípio da solidariedade se torna ainda mais urgente. Não deixaremos ninguém para trás. A legitimidade do nosso movimento não nasce de discursos isolados ou de grupos que tentam se autoproclamar porta-vozes de toda a comunidade sem carregar o peso da trajetória coletiva.

Nossa força vem de uma luta histórica e contínua, construída com sangue, suor e coragem por inúmeras gerações que enfrentaram o silêncio, o exílio e a morte para que hoje pudéssemos falar em direitos. Honrar essa ancestralidade é reconhecer que não caminhamos sozinhos e que a luta por dignidade jamais poderá ser seletiva.

Ética, esperança e futuro

Ao olhar para trás, vejo que vencemos muito. Avançamos em direitos, em visibilidade e em respeito. Mas sei que a luta continua — e continuará enquanto houver injustiça. Minha vida e minha militância sempre estarão guiadas pela ética, pelo respeito ao ser humano, pela união e pela esperança de vivermos em uma sociedade em que todas as pessoas, de todas as identidades e orientações, tenham sua dignidade reconhecida.
O que nos une, além da discriminação e da violência, deve ser a solidariedade.

E não soltaremos as mãos das pessoas trans!

Toni Reis
Doutor em Educação
Diretor-Presidente da Aliança Nacional LGBTI+
Presidente da ABRAFH
Diretor Financeiro da Rede Gay Latino

Toni Reis

Ativista LGBTI+, cofundador da ABGLT e do Grupo Dignidade. Diretor da Aliança Nacional LGBTI+, professor e autor premiado em direitos humanos.

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