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A atualidade de Manuel Bandeira

O escritor Manuel Bandeira. (Foto: Reprodução)

Vejo no imperialismo da grande República uma força a que só a revolução social podia fazer frente. Ora, os entendidos em questões econômicas acham com boas razões que o capitalismo americano ainda está longe da crise decisiva e terá ainda um século para crescer

Faz quase cem anos que essas frases sairam no jornal A Provincia, do Recife. A edição é de 11 de janeiro de 1929. Seu autor, o poeta pernambucano Manuel Bandeira, a propósito da visita do presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover, ao Brasil.

Palavras premonitórias, embora a derrocada do Império venha se produzindo sem a cirurgia de uma revolução social. Mas no caldo de uma crise aguda do capitalismo, onde crescem as revoltas urbanas e intensificam-se as ações armadas preventivas, como no caso da Ucrânia e as expansionistas como a ocupação de Gaza e da Cisjordânia por forças israelenses à serviço dos Estados Unidos.

O uso da força econômica como tentativa de preservar o “capitalismo americano” tende ao fracasso. Ao articularem-se entre os seus mercados, potências regionais superarão sanções impostas pelos Estados Unidos que, ao proceder dessa forma, viabiliza o crescimento de países como o Brasil e a India, por exemplo.

Os dois paises vem estreitando as suas relações, colocando uma alternativa concreta à relação subalterna do governo indiano aos Estados Unidos. O primeiro-ministro Narendera Modi esteve no Brasil, em julho. No início do ano que vem será a vez do presidente realizar uma visita de Estado à Índia. Antes disso, em outubro, o Vice-Presidente, Geraldo Alckmin viaja para lá com ministros e empresários para participar da reunião do Mecanismo de Monitoramento de Comércio para tratar de cooperação na área comercial, de defesa, energia, minerais críticos, saúde e inclusão digital.

Segundo o Presidente Lula, a meta é “aumentar o comércio bilateral para mais de US$ 20 bilhões de dólares até 2030˜, ampliando para isso “a cobertura do acordo entre Mercosul e India”. Além de iniciar a troca de “informações sobre as plataformas de pagamento virtual entre os dois países, incluindo o PIX e a UPI indiana”.

São dados alentadores. Ao invés do plano global de controle do planeta, projeto dos governos dos Estados Unidos a partir do fim da segunda guerra mundial e avivado com o colapso da União Sovietica, temos a formação de blocos regionais fortalecendo o multilateralismo, com capacidade para permitir a sobrevivência e garantir o crescimento de países livres da subjugação imperial.

Claro que o avanço dessa onda positiva depende de forte apoio interno em cada um dos países integrantes dos blocos. No caso brasileiro, os trágicos seis anos dos governos que antecederam o atual, produziram um retrocesso dramático no protagonismo que o país vinham conquistando no cenário político-econômico internacional. E que vem sendo recuperado pelo atual governo.

Outro retrocesso pode ser fatal para o futuro de muitas gerações. A expectativa é a de que a brutalidade imposta pelo Império, com seus cúmplices nacionais, sirva para clarificar a sociedade, livrando-a das desiformações que circulam não só nas redes sociais, mas também através das corporações de mídia tradicionais, talvez até com maior dolo.

Manuel Bandeira não fez apenas prognósticos. Contou fatos. Mostrou-se incomadado com os discursos laudatórios com que o Presidente Hoover foi recebido no Brasil.

Um pouco de reserva, de resto bem compatível com a mais perfeita cordialidade, não fazia mal nenhum nas condições atuais em que a política do continente se orienta para uma volta dfícil com a feição imperialista que vem tomando a civilização norte-americana. Eu sou dos que acreditam no perigo americano

Mas concluia o artigo com uma nota de humor e esperança. Seguia pedindo “reserva e contenção” nas “manifestações sentimentais de simpatia”. Mas dizendo:

Eu bem sei que nessa matéria o brasileiro também é malandro… E quando o Utah (navio que levava o Presidente dos Estados Unidos) saia barra fora, o carioca do cais gritou para ele: Adeus, Hoover! Até amanhã se não chover!…

PS. As citações são do livro “Manuel Bandeira, crônicas inéditas”. Editora Cosac Naify, 2008. Por sinal, uma belissima edição.

Lalo Leal

Sociólogo, Doutor em Comunicação e professor aposentado da ECA/USP. Jornalista premiado, apresentador de TV e diretor do Centro Barão de Itararé.

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